(sobre)vivendo

365 dias que sobrevivemos. E, infelizmente, não só ao vírus.

Sobrevivemos ao constante medo do contágio. Aglomerados em casa, assistimos a milhares de mortes por dia, leitos de hospitais esgotando e covas serem abertas incansavelmente. Parentes que se vão, sem que ao menos pudéssemos dar nosso último “adeus”.

Sobrevivemos à desigualdade social que se torna cada vez mais gritante. Nunca antes houve tanta diferença entre o estudante da periferia e o estudante dos grandes centros, como há agora. Este, mesmo com as aulas online, consegue manter sua rotina de estudos. A internet é boa, o tempo é livre, ou, pelo menos, há a possibilidade de ser parcialmente livre. Aquele levanta cedo para ajudar a colocar o pão na mesa, atravessa a cidade em ônibus e metrôs lotados (não só de pessoas, mas das possibilidades de contaminação) chegando em casa a tempo de dormir insuficientes 4 horas por dia. Além disso, internet é uma realidade distante. A tecnologia avançou muito, mas não o suficiente para eliminar todas as diferenças. Quem diria que a educação que realiza os sonhos de tantas pessoas e oferece melhores condições de vida, agora também afastaria tanta gente do almejado “sucesso”.

Sobrevivemos à economia instável e às crescentes altas nos preços que amontoam-se nas prateleiras dos supermercados. Agora, se faz necessário escolher entre o arroz e a carne. Os dois já não nos cabem mais. Apesar das máquinas tão desenvolvidas, somos forçados a caminhar. O preço da gasolina impossibilita o deslocamento em veículos automotivos. E para compensar tudo isso, $600,00 ao mês no bolso de centenas de brasileiros. Agora, $250,00. Façamos as contas, e de novo, elas revelam o que tememos: vai faltar no final do mês. Nem o essencial é possível manter. A fome se alastra mais uma vez.

Sobrevivemos a um governo que faz piada com o uso de máscara, não respeita as normas de segurança exigidas pela OMS e que faz campanha contra a vacinação, aparentando ter mais medo de “jacaré” do que do colapso total no sistema de saúde.

Sobrevivemos à depressão, ao desespero, à ansiedade, à vontade de voltar logo ao normal… Se é que ainda sabemos o que seria “normal”. Talvez aquela realidade distante, em que máscaras só apareciam em época de carnaval e o sorriso podia revelar nossos pensamentos.

Não, não é fácil (sobre)viver em meio a um momento histórico. Principalmente, quando todos os demais fatores tornam cada vez mais exaustiva essa sobrevivência.

Esse é o preço que vem sendo pago pelo brasileiro há um ano, e a fatura parece cada vez mais distante do fim.

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