Troca

Quando você se encontra velho e surrado, sente-se amassado e prestes a rasgar. Quando você se sente sujo e com pouco valor, com pouco amor. Quando você se sente assim, você se sente inclinado a contar a sua história, tudo, desde o início, quando era apenas uma folha em branco, sem nenhuma impressão e personalidade, quando era puro e imaculado, e ainda não conhecia a ganância do mundo. É assim, meu caro amigo, que a minha vida começou.
Eu nasci ao lado de milhares de irmãos, todos idênticos e animados, ansiosos para sua primeira impressão, o marco da vida de todos como eu, quando passamos a possuir algum valor. Nós, no entanto, não tivemos muita sorte e valíamos pouco, apenas um.
Isso não era de todo ruim, “pelo menos valemos algo” era o que dizíamos uns para os outros, mas isso foi até o corte começar. Foi doloroso ser separado dos meus, mas eu entendia que era necessário. Todos nascemos com a certeza de algo, e a minha era que eu raramente ficaria em apenas um lugar, muito menos ao lado dos meus semelhantes.
E então começou. Fui colocado dentro de uma caixa escura, cheia de circuitos e bipes. Com códigos e senhas. E tentei me acostumar, realmente tentei, mas lá era tão frio e apertado que até agradeci quando fui sacado. Minha primeira pessoa foi uma senhora gentil, com muita idade e equivalente sabedoria. Pelo menos era isso o que eu pensava, até ela me dar para algumas crianças que não exitaram em me trocar por balas.
Fui parar então nas mãos de um mercador. Sujeitinho gentil, aquele. Conheci vários tipos diferentes aquele dia, alguns até de valor menor e formato diferente, não mais felizes, infelizmente. O mercador, apesar de gentil, tinha um sério problema com higiene, e isso me afetou mais do que eu prefiro admitir; meu próximo possuidor, no entanto, não parecia compartilhar da minha opinião.
Ele vivia ao telefone e usava roupas dignas de funeral. Era grosseiro e não prestava atenção ao trânsito. Não fui dado de boa vontade por ele, fui roubado. E para ser sincero, acredito que ele bem que mereceu. Já tinha ouvido falar de situações como essa, em que você é levado contra a sua vontade. Ao que parece, sou eu quem move o mundo e todos me querem ter nas mãos. Inclusive quem não tem muitos de mim.
Meu novo proprietário era um sujeito engraçado. Ele morava debaixo de uma ponte e vivia dizendo que a vida não era justa, além de usar palavras que eu não entendia, e duvido que já tenha visto um dicionário. Ele não exitou em me trocar por um pouco de comida.
Depois disso, passei por mais mãos do que o mais alto dos meus irmãos. Fui rasgado, enrolado e molhado. Além de ser amassado e ter ficado encardido. Viajei mais do que alguém pode imaginar ser possível, até ser finalmente levado pelo vento.
Quando isso aconteceu, eu imaginei ser o fim. Afinal, devia ter fim algum dia, não? A vida não deveria ser de todo ruim, com tão pouco valor. Ledo engano. Fui encontrado por um estudante de medicina, e mais uma vez, trocado. Por algo interessante desta vez, ainda que não tenha mudado minha triste trajetória repetitiva. Uma pequena caixa de remédios para o cansaço; pelo menos desta vez, eu servi para ajudar alguém que não me tratou com tanto descaso.
E apesar disso, eu sei que acontecerá outra vez, porque é para isso que eu fui criado. Mesmo rasgado e remendado e encardido. Para ser trocado como quem não vale nada, apesar de ser aquilo que determina o valor. Porque é isso que sou: uma moeda de troca. Uma nota de dólar.

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