Sem Lei nem Rei

 

Os justos repudiam os desonestos, já os perversos detestam os íntegros.

Livro dos Provérbios, Capítulo 29, verso 27

Uma mulher, grávida de cinco meses, é agredida por seu “parceiro” durante uma discussão acalorada – a ferramenta de agressão escolhida tratava-se de um tijolo; ladrões de carro desaparecem do “radar” da polícia após uma troca de tiros frenética entre as partes, envolvidas em uma perseguição acirrada – que, por sua vez, resultou infrutífera; uma mãe enfurecida violenta uma criança dentro do ônibus público a tapas e socos, para então ser recebida por uma multidão enfurecida no que (quase) terminou em um linchamento extremamente violento e desnecessário; um jovem de 16 anos é morto a tiros em meio a uma “briga de quadrilhas”, outro (este já envolvido com o tráfego de drogas) é esquartejado por motivos similares, outro ainda (não se sabe com certeza se envolvido no terrível mundo dos psicotrópicos) é alvejado pelas costas por um outro jovem – ambos menores de idade – e, depois de morto, recebe ainda todos os tiros restantes pela mão do criminoso. Só pra garantir, claro, nunca se sabe…

Um leitor mais ingênuo poderia supor tais histórias tratarem-se de ficção mais agressiva, ou mesmo de alguma folha sensacionalista das grandes capitais. Infelizmente não é o caso, e tais histórias chocantes são uma pequena mostra, dos últimos dois anos (algumas dos últimos dias) dos níveis absurdos de violência aos quais a cidade de Machado vem testemunhando.

Confesso não ter tanta propriedade para falar de qualquer assunto pertinente à cidade que, há pouco mais de um ano, recebeu-me em seus braços acolhedores (mas também tensos). Contudo, graças a uma pequena dose de atenção e paciência com as quais o bom Deus me proveu, pude notar a insatisfação, e o quase desespero em certos casos, dos habitantes nativos (ou mesmo naturalizados) de Machado. Certo é que este fenômeno é recorrente em várias cidades interioranas do país, mas acredito ter chegado aqui a níveis incômodos de preocupante intensidade.

A cidade, contudo, resiste: nos últimos dois anos, dois grandes protestos foram feitos pelos machadenses contra a Violência – esta entidade personificada e sem identidade própria, devoradora insaciável de nossa tranquilidade e paz de espírito. Mesmo dando voz à insatisfação contra as ondas de agressões e crimes em geral, pouca coisa tem mudado: segundo a Polícia Militar, apenas no último ano houve um aumento de 18% na taxa de crimes violentos dentro do município.

E, contudo, o maior problema é a quem recorrer num momento perturbador como esse. A quem culpar? A quem pedir socorro? Lembro-me de uma das cartas do descobrimento, a dizer dos índios locais o seguinte: “A língua deste gentio toda pela costa é uma: carece de três letras, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente”. Preconceitos lusitanos à parte, creio ser um velho raciocínio aplicado aos tempos modernos, ao menos em parte: vive-se ainda “sem lei nem rei” (deixemos a questão educacional, da língua, e religiosa, da Fé, para uma ocasião mais oportuna). E não o digo apenas a respeito deste construto monstruoso de violência urbana que assola Machado nos últimos anos: trata-se também de atentar para a violência “miúda”, do dia-a-dia, que não redunda necessariamente em crimes contra o Estado Maior (a Lei) ou os líderes em exercício (o Rei), mas uma violência mais crua, selvagem e “aceitável” em certas instâncias. Duvida o leitor? Convido-o a prestar atenção no que se diz e faz em certos círculos sociais da cidade, a começar dentro de nossas próprias instituições de ensino, e provar-me precipitado em minhas conclusões. Eu o asseguro, contudo, de que este (infelizmente para todos nós) não será o caso…

Não se pode confiar mais no bom Deus para varrer “a maldade do homem” com água ou fogo dos céus, mesmo que “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração (dos criminosos e perversos) era só má continuamente”. O clamor público, entretanto, provou-se de pouca – ou nenhuma – utilidade prática a fim de erradicar este terrível problema de nosso meio. O que fazer?

Infelizmente, não posso responder ao leitor de maneira satisfatória: faltam-me saberes e sobram-me dúvidas para propor uma medida, por menor eficiente que seja. Posso apenas convidá-lo a pensar comigo, se, assim como a velha divindade do mundo antigo, você também se encontra farto da injustiça e da maldade que infesta esta nossa cidade, populosa de um povo que vive desregrado, sem respeito à justiça nem consideração pelas autoridades de efeito.

Falem bem, falem mal – mas não deixem de ler nosso jornal. E que dias melhores nos aguardem…

3 comentários em “Sem Lei nem Rei”

  1. Leonardo Silveira

    Ficou claro, no meio de tantas coisas ditas em poucos parágrafos, a insatisfação. Não conheço a cidade, mas aparenta que você não é um único insatisfeito. Porém as mãos ainda estão atadas e aí entra a dúvida de “Como proceder?/De onde virá o socorro? “. Posso estar muito iluso, mas pelo pouco que li, vejo tristemente que não é uma exclusividade de Machado, minha cidade, Cachoeiro, tão quanto, está desolada e aparentemente só piora. O que aconteceu com o homem para ficar tudo assim?
    Mas assim, como? O mundo está como está. Não tenho respostas, somente perguntas e não são poucas.

  2. Sei que a solução do problema vai além, mas acho que fé também é importante nesse momento.
    Quando não há fé (não somente a religiosa), ninguém começa nada.
    Acredito que o autor já começou algo, mesmo que pequeno, por acreditar que as coisas podem mudar.
    Também penso que um protesto contra violência não seja tão eficiente quanto manifestações pela paz. Em protestos contra a violência as pessoas ficam indignadas e carregam consigo uma energia um pouco negativa, e acabam por atrair mais essa “onda”.
    Uma manifestação pela paz faz com que as pessoas tenham seu pensamento voltado para algo positivo, buscando isso para si, emanando tranquilidade ao invés de negatividade.

    Enfim, é o que eu gostaria de contribuir. Não conheço a cidade, mas participaria se pudesse. Enquanto isso, o que posso fazer, meu amigo, é pedir aos céus que lhes dêem forças para contribuir com o que cada um tem de melhor para uma cidade mais tranquila.

    Abraços

  3. Não concordo qdo o autor diz que “Não se pode confiar mais no bom Deus para varrer a maldade do homem”. Pois é justamente Deus que fará as coisas mudarem com ajuda dos seus servos que cada dia aumenta mais em Machado. Só o temor a Deus irá mudar essa situação. Precisamos ensinar nossas crianças e jovens nos caminhos de Deus. Em setembro teremos em Machado mais uma edição da Marcha para Jesus. Vamos incentivar a todos participarem. Só assim Machado irá crescer e não em quantidade de crimes mas em verdadeira prosperidade. Infelizmente em 2015 não tivemos a Marcha em Machado e a criminalidade aumentou e a cidade caiu em um caos total. 2016 será diferente. Participem e incentivem seus filhos, parentes e amigos a fazer parte desse grande evento Cristão em nossa cidade.

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