Relacionamento contemporâneo

Início da madrugada. Ele se viu entre carros e motos em movimento. Nenhuma faixa de pedestres ou qualquer outro meio de fugir do trânsito extremamente caótico, aliás, esse não era seu objetivo. Ver-se em meio aos veículos fora do que representava sua vida, agora era para ele o único escape de tudo que se havia passado, afetando-o a tal ponto que fugir de outro modo que não fosse suicídio não faria sentido. Ele não era corajoso, seu anseio por interceptar qualquer um que, naquele momento, estivesse voltando ou indo oscilava de picos de coragem a marés de covardia.
Como se tudo de mais previsível se tornasse realidade, seus olhos veem uma silhueta em meio ao breu. O que uma garota como ela estaria fazendo na avenida durante a noite? Ele enterra por um momento tudo o que ocupa parte de seu cérebro e todo seu coração para que a garota envolta pela escuridão da noite tome conta desse espaço. Mesmo sem vê-la ele a observa sem notar que também é observado.
Uma forte luz dos faróis emana em seus rostos tornando-os por segundos, visíveis e, por um momento, ele sente um forte impulso de correr como nunca fizera antes culpando-se por não ter identificado a moça a tempo, mas ela é muito mais ágil, em segundos se veem a menos de 10 centímetros um do outro, não se sabe o que está por vir, se ele a beijará, se ela derramará lágrimas de arrependimento pelo sofrimento causado ao rapaz, ou se haverá o perdão de ambos os lados. Então ele a beija.
Ela quer lhe pedir desculpas por permitir que tanto tempo se passasse, desculpas por ser capaz de causar tanto impacto em sua existência. Ela tenta, porém ele não é capaz de ouvir sequer outra palavra de sua boca. Ela sabe o quanto aquele beijo significa e que mesmo assim não foi perdoada, ele não costuma esquecer.
Ele não pensa no futuro, não pensa no passado, só pensa na frágil menina que, antes tão distante, agora está tão perto. Sua mente é ocupada pelo impasse entre a garota que ama e a garota que impulsivamente o privou de sensações que jamais viria a sentir novamente. Imagina se tudo aconteceria novamente, se ele seria capaz de voltar a ser o que era antes. Seus pensamentos quebram o silêncio.
Dezessete minutos e meio e dois corpos ainda se mantêm em meio à estrada agora quase deserta. Nenhuma palavra é capaz de se sobrepor ao toque, ao calor, à mágoa, à paixão. Seu fôlego não é suficiente para que as palavras fluam, sentem-se como se não falassem sequer sua língua nativa. São agora mudos, surdos e cegos, só lhe restam o tato, o suor das mãos, o batimento de dois corações que há pouco poderia ser interrompido por uma desilusão catastrófica. Ele pega lentamente cada um dos seus dedos, ela o olha como se seus olhos tivessem sobrevivido a uma tempestade. Ele beija sua testa, suas mãos, seus lábios e as palavras, finalmente, voltam a sua boca. Ele pensa, repensa. Perdoa-lhe. Entrelaça seus dedos aos dela e depois do primeiro passo após ter desejado o fim de sua vida e ter recuperado sua sanidade, com ternura, diz rente aos ouvidos dela:
-Você me promete? – Sua respiração jamais estivera tão ofegante ainda que estivesse parado por quase uma hora.
Sem que sua mente se confunda, ela entende com clareza sua pergunta e sabe com toda a certeza que resposta dar ao homem do seu presente, futuro e de sua vida.
-Sim. Eu prometo que sim. Nunca mais te darei spoilers.

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