(RE)AÇÃO

    Quando a questão é a sobrevivência, as prioridades são revistas, o jogo muda, o que parecia tão importante há alguns dias, agora já não faz diferença. Em tempos de quarentena, assombrados pela pandemia, somos levados a refletir.

    Se o vírus nos separa fisicamente pelo isolamento, por outro lado nos une pela fragilidade da condição humana. Os planos, os encontros, as viagens, os compromissos inadiáveis, o trabalho, a rotina, enfim, tudo se dissipa e desaparece como a neblina. Vivenciamos o provérbio bíblico cujo ensinamento é que “o coração do homem traça seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.” Estamos no mesmo barco, os bens materiais pouco importam e nada resolvem diante do medo, da angústia, da impotência frente à realidade assustadora que se aproxima.

    Como reagimos a essa situação de perigo iminente? É possível fazer uma analogia com a batalha espiritual que o apóstolo Paulo apresenta em sua carta aos Efésios. Assim como não podemos ver o inimigo de nossas almas, embora ele seja real e tenha como alvo destruir vidas, deparamo-nos com um vírus que também não vemos e da mesma forma, negá-lo ou não conhecer sobre ele é a pior maneira de lidarmos com o problema. Se o ignoramos e agimos normalmente, colocamos em risco não apenas nós mesmos, mas também os que estão à nossa volta e podem ser atingidos pelos estilhaços que, sem perceber, disparamos. Da mesma forma, não ter conhecimento suficiente pode ser tão ou mais destrutivo, já que um soldado não vai para a guerra sem saber quem são seus inimigos, se assim for, corre o risco de atacar seus próprios aliados. Tal reação também acontece na pandemia, o pânico nos cega e passamos a agir por puro instinto de sobrevivência, agindo como se a única coisa que importasse fosse salvar a nós mesmos, garantir que minhas “supostas” necessidades sejam supridas sem me importar se o meu próximo também terá tal oportunidade ou se estou tomando a parte que lhe cabe. Passamos a ver todos à nossa volta como ameaça em potencial e tal qual um porco espinho, armamo-nos pra nos defender, atacando assim até mesmo quem não nos oferece risco algum.

    Que ao final dessa turbulência, quando vier a calmaria, possamos ter aprendido a valorizar o que realmente importa, a construir relações humanas mais sólidas, a reconhecer humildemente nossa vulnerabilidade, entendendo que o controle de nossas vidas nunca nos pertenceu.

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