Proclamando a República: Uma Revisão da Letargia Popular

Dia 15 de novembro de 1889 foi, sem dúvidas, um grande marco para o Brasil. Há quem diga que a Proclamação da República foi um movimento popular e aconteceu em decorrência da queda da escravatura, e de fato, esse foi um dos contribuintes para o fim da nossa não tão estimada monarquia, já empobrecida e destituída tanto de uma corte quanto de admiração popular. O movimento republicano brasileiro teve sua evolução em filhos estudados da aristocracia e, dentro dessa notável burguesia, havia também um segmento da sociedade que até então pouca influência tinha em nossa política: o militar. O inconformismo do oficialato, juntamente com vários fatores de época e mesmo o aparecimento de uma consciência política dentro das armas levou a pequenos duelos entre os gabinetes políticos e as fardas, até que, pela cadeia de comando foram desferidos aos militares certos poderes de opinião que levaram ao acirramento de ânimos e a precipitação da Proclamação da República em contraposição a um gabinete hostil às forças militares.

Além desses fatores, naquele momento, para as massas nacionais tanto fazia que tipo de governante tivesse o Brasil, já que, bem verdade, uma manifestação da tradicional omissão cívica brasileira, fenômeno que se repetiu várias vezes em nossa história, como nos anos da Era Vargas, durante o poderio militar e nos governos após 1994 – e talvez no ápice em nossos dias – cuja consequência é a absoluta não participação do povo nas decisões nacionais, que acabam concentrando-se nas cúpulas políticas. Sem apoio popular e pressionada de um lado pela insatisfação da elite econômica e de outro pela própria degradação do regime e de um terceiro, pelas armas do Exército e da Marinha, esta acabou por empunhar as armas e disto fez-se a República que, portanto, não foi um movimento popular, como já não havia sido o da Independência.

Muito da nossa instabilidade política atual é decorrente da gênese da República, e muitos fatores podem ser citados com base no que foi dito anteriormente. 1- O primeiro fator deve-se à letargia da população brasileira, que atravessou a era imperial e o século XX republicano e que, até hoje, a participação do conjunto da sociedade nas decisões políticas mostra-se mínima; 2- É importante notar que a República não substituiu completamente as forças de poder do Império, ela veio para agregar novas figuras ao centro dele, e observou sem resistência o adesismo de parte substancial dos antigos monarquistas à defesa do novo regime; 3- O fato dos agentes econômicos passarem a deter o poder decisório excessivo que mantém até hoje, muitas vezes contraposto à realidade internacional, sendo que as dissensões políticas e os interesses econômicos se sobrepuseram às necessidades  reais do país.

Não é certo afirmar que esses inúmeros problemas não ocorreriam se o Brasil ainda fosse império, porque mesmo que não proclamada a República, acabariam por acontecer do mesmo jeito. Em  relação à República, é possível perceber então a contradição entre um sistema que prometia trazer o povo para o centro da atividade política, mas que consolidou-se quase sem envolvimento popular nem na disposição da Monarquia nem na formação do novo governo. A República decorreu de interesses pontuais, e por conta disso, o Brasil experimenta um período de instabilidade política que perdura até hoje, quando as forças parlamentares se aliam conforme a popularidade do presidente ou do vigor econômico que cada governo consegue demonstrar. Continuam válidas as palavras do historiador José Murilo de Carvalho: “Ainda hoje, a atitude popular perante o poder ainda oscila entre a indiferença, o pragmatismo fisiológico e a reação violenta”.

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