Polêmica, e não são mamilos. (Sausage Party Review)

Quem viu o trailer, não julgue o filme antes de vê-lo, apesar de seu apelo sexual (que ainda geram muitos textos), a mensagem que ele passa consegue sim ser sensível e, ao mesmo tempo, controlada. Falar de religião é um pouco pesado, então vamos dividir uma linha pré-definida pelo filósofo Kant que nos ajudará a entender melhor tudo que eu estou falando: Kant divide qualquer assunto religioso entre sagrado e não-sagrado, a divergência entre estas duas linhas faz do que é sagrado algo que sempre se deve tratar com um respeito exacerbado e fanático, enquanto o não-sagrado simplesmente não importa. Certamente que qualquer um com essa informação classificaria o filme como não-sagrado, seu apelo sexual, heresias e uma temática bem polêmica faz do filme “um pedaço de mal caminho”.

Mas a verdadeira questão que o filme levanta (e essa sim é muito relevante) é: seria Deus necessário para a sobrevivência do mundo? Nesse ponto, já temos assunto para uma tese de doutorado (em Teologia), tentemos analisar a situação.

A existência ou não de Deus é um fator realmente necessário para as boas ações? O que faz do ateu ser menos virtuoso que o cristão? O ponto reside somente na questão do caráter. Definir ações como boas ou ruins é algo que implica diretamente na moralidade, ponto sobre o qual ainda existe muita discussão quanto ao que define a moral. Seria moralmente certo fazer algo que te faça feliz? Isso configura uma boa ação? Seria moralmente certo fazer algo que segue algum princípio e ainda sim é falho? Seria moralmente certo fazer algo que traga apenas abstenção da dor e satisfação?

Quem assiste à Festa da Salsicha pela primeira vez percebe uma mensagem diretamente ateísta, mas em que sentido seria isso ruim? Manter a paz inventando uma religião que ameniza todos os pensamentos de desgraça para além daquela porta de correr automática seria uma decisão moralmente correta? Decidir que tudo aquilo que acontece do lado de fora é só mais um lado ruim da vida, e que temos que lutar contra isso mesmo sabendo que a luta será em vão, é uma decisão moralmente correta? (Falo de luta em vão porque eles são alimentos que falam, eles têm um único propósito).

Pensando, seria então a religião algo desnecessário na nossa vida? Os indivíduos que têm fé e os que não têm fé são capazes de argumentar até a morte a respeito disso, e como diria um filósofo bem famoso, “Não se pode cutucar Deus com um graveto”. Verdade seja dita, mesmo que a racionalidade seja o orgulho do ser humano, ter fé é algo que, se administrado corretamente, leva você para cima, tanto na crença religiosa como no caminho moral da sociedade. A questão em si não é: Seria então algo desnecessário na NOSSA vida? E, sim, se seria algo necessário na SUA vida? Até onde sua fé o leva a fazer boas ações? Até onde os tabus da sua fé privam você de fazer algo moralmente correto?

Por isso a religião toma um papel muito importante neste filme, as brigas e discussões religiosas que acontecem entre as prateleiras, as inúmeras metáforas relacionadas ao fascismo, ao islamismo e ao judaísmo, ao cristianismo e seus tabus, às religiões orientais. Bem, a percepção do mundo exterior baseada em um único “escrito sagrado” faz dessa metáfora a mais impressionante e inteligente do filme. De uma forma muito exagerada e com um  desnecessário que cabe muito bem à proposta, esse filme faz rir, faz pensar e traumatiza. Trazer questões sobre a relevância de divindades, o ridículo do fanatismo religioso, o que são as boas ações… Esse filme se tornou um dos meus favoritos. Por alguns defeitos que realmente foram difíceis de engolir (alguns estereótipos), minha nota será 9.

P.S.: Para quem assistiu ao filme, fazer a redação do ENEM foi fácil demais.

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