Pecados de Inverno

Sentiu-se exausta, sua alma parecia clamar por descanso, quando fechou a porta atrás de si. Os passos pareciam pesados e lentos demais para alguém que havia insistido em um salto alto com tamanha veemência. Sentia que o casaco sobre os ombros personificavam o peso imaginário que sentia sobre si todas as noites quando apagava as luzes do quarto e se deitava com os monstros que rodavam em torno de sua cabeça.
Do lado de fora do prédio, pôde ouvir o vento uivante anunciando que a noite seria fria, quando atingiu a portaria.
Uma voz em sua cabeça implorou para que ela retornasse ao seu apartamento, retirasse aquela máscara e aquela identidade que não lhe pertenciam, trancasse as portas e janelas para não permitir que lhe roubassem do seu próprio eu.
Agora, durante a fase adulta, Valentina Murray sabia que ficaria sozinha, a solidão era um dos poucos lugares que não a amedrontavam. Entretanto, lembrava-se de que durante a infância jamais cogitara tal possibilidade, não havia possuído tempo suficiente para isso, afinal, sentia-se como uma parte do sol, uma pequenina parte de luz radiante e sem preocupações, nada além do puro calor crescente dentro de seu corpo. Sentiu o peito apertar com as lembranças que passaram diante de si tão rápido quanto chegaram.
Os pulmões pareceram congelar quando a mulher inspirou fundo o ar gélido, sentia que algo dentro do peito começava a se tornar tão frio quanto a neve que se encontrava espalhada pelas ruas e calçadas do lado de fora.
Moveu-se até que os dedos compridos envolvessem a maçaneta da porta de vidro, fechou os olhos por uma fração de segundos, cogitando sobre quem realmente era e sobre o que realmente queria e, por fim, abriu a enorme porta.
Sentiu-se estremecer quando um carro passou trazendo consigo o vento frio e cortante do inverno.
Enquanto caminhava pelas calçadas, cobertas pelos pequenos flocos brancos e ocupadas por pessoas alheias demais a tudo que se passava, enfiou a mão nos compridos bolsos do sobretudo.
Valentina odiava a sensação de vazio que lhe preenchia o peito quando observava as pessoas ao seu redor.
Ela não sabia seus nomes, não conhecia suas vidas, mas poderia jurar sentir suas almas. A forma com que sorriam, como andavam, como olhavam através da janela dos carros e da vitrine das lojas e cafés, como andavam de mão dadas e, principalmente, ela odiava a forma com que cada um deles pareciam ocupados demais para olhar de fato o mundo a sua volta.
Sentia os saltos afundarem na neve a cada passo dado e, de repente, um brilho tomava seus olhos; quando ergueu o olhar, encontrou a sua frente um céu preenchido de estrelas em Terra. As luzes da cidade pareciam constelações constantes ardendo e queimando diante dela.
O brilho a lembrou dos olhos dele, que jamais carregaram qualquer sinal de corrompimento causado pela crueldade do mundo, eram sempre tão juvenis, como naquela primavera, quando seus lábios se tocaram pela primeira vez, após observá-lo caminhar pelo extenso campo até que finalmente a atingisse. E agora, ela não mais o tinha,  havia o perdido há muito tempo.
E então tudo pareceu tornar-se em brasas, como uma lareira no final de uma noite, tudo havia se apagado e agora sobrava apenas o carvão, queimado e jogado às cinzas.
Chacoalhou a cabeça ao avistar o letreiro em vermelho “Welcome to hell”, soava-lhe tão irônico estar em um lugar que a mandava direto para os braços da perdição. E foi aí que se deu conta, quando adentrou a boate, lotada de pessoas vazias com copos cheios e sorrisos mascarados, que todos eles, assim como ela – que agora sorria – haviam sido corrompidos pelos pecados e pelo frio constante que haviam criado dentro de seus próprios corações.
Todos eles haviam se condenado, não ao fogo eterno, mas sim a longos e perdidos pecados de inverno.

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