O tempo

E o tempo passou, devastador. Deveras veloz, apenas iludiu-me quando travestiu-se de uma modorrenta lentidão nas monótonas tardes vazias que o passado agora guarda consigo.
Ele também foi quase que imperceptível. Poucos notaram sua presença. Para falar a verdade, a maioria só percebeu quando, há muito, ele já se fora.
Pode soar como algo estranho e complexo. Penso que ele o é; aliás, vejo tais nuances como suas virtudes. Se o tempo fosse de uma natureza coerente, simples e de fácil previsão, a vida passaria da deliciosa incógnita que nos instiga para um chato roteiro do qual todos saberiam o desfecho.
Sorte nossa que ele continua imprevisível e subjetivo. Às vezes, não é como desejamos: basta que queiramos que ele se faça rápido, que obteremos uma irritante demora.
Mas não podemos vê-lo apenas como um duro algoz. Para os apaixonados, vulgo enlouquecidos, ele é tiro e queda. Não há melhor remédio.
No fim das contas, ele não é bom ou ruim. Está bem distante do maniqueísmo. Ele simplesmente existe, fora do nosso campo de compreensão.
Somos dele meros escravos e aprendizes. Sem escapatória, resta-nos moldá-lo constantemente, em um jogo infindável de encontros e desencontros, ganhos e perdas, no qual a relatividade reina absoluta em meio a um cenário de mudanças que preservam apenas a essência das coisas.

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