O que esperar de um cadáver falante? (Swiss Army Man Review)

O que esperar de um filme onde um náufrago encontra um cadáver com superpoderes? Um filme cheio de piadas de peido que consegue ser sentimental e inocente.

Swiss Army Man me lembra muito a relação de um pai com um filho – talvez, disfarçado no plot de romance e stalk. O filme esconde de nós uma lição profunda sobre uma relação familiar conturbada. O filme em si fala de solidão e depressão (e peidos, como dito ali em cima) e deixa muito clara sua mensagem.

A atuação de Daniel Radcliff no papel do cadáver consegue ser muito boa, apesar de se mexer de verdade em menos de um quarto do filme.

Paul Dano toca os “eus” solitários dentro dos coraçõezinhos de qualquer um.

A fotografia do filme é interessante: a câmera fixa em um eixo quando o protagonista é o Radcliff e solta quando a cena é com o Dano. O modo como a montagem de cena nos leva através de um sonho, sentindo a sombra da realidade sobre nossas cabeças, mostra o limiar entre a sanidade e a insanidade, da mesma forma que essa linha vai se desvanecendo no decorrer do filme – mas, ainda assim, não queremos acordar.

Se você pretende assistir ao filme, pare aqui, SPOILER ALERT. Vou deixar o trailer para evitar espiadas inevitáveis:

 

https://www.youtube.com/watch?v=icPMWXVcuXw

 

VOCÊ FOI AVISADO!

 

Fica muito evidente na construção da história o caminho de autoconhecimento e aceitação pelo qual o personagem passa durante a trama: logo no começo do filme, quando ele coloca a corda no pescoço e quase se mata, ele morreu – não, não é uma teoria de “Inferno na terra”, é uma morte simbólica: ele matou o seu antigo “eu”, dando espaço a uma descoberta. No filme existem dois momentos de morte iminente, um na ilha e outro com o urso…

Bem, vamos analisar isso por partes:

A ilha onde Dano se perde pode ser considerada como uma ilha interior, onde ele se vê perdido, sem rumo, sem perspectiva, sem fuga. Talvez essa ilha tenha se materializado na sua imaginação após ele sentir um vazio na sua vida, quando ele se pergunta: “por que eu estou aqui, nessa floresta, perseguindo essa mulher casada se já sei que não há futuro com ela?”. É nesse ponto que ele se perde na ilha e acredite, meus caros, não havia mar. O corpo do Radcliff foi achado na beira do rio, Dano viu nele o que ele nunca foi. Daí, o primeiro eu de Dano morre, dá espaço para um novo Dano (materializado na forma de um cadáver) que vai reviver.

A nova vida de Dano começa com um único propósito, conquistar a moça que ele via no ônibus e stalkeava. Por isso ele coloca na cabeça que o Radcliff tem que conquistar a moça – então temos nosso filme: um cadáver flatulento que o ajuda a fugir da ilha, mostrando como ele nunca se relacionou bem com seu pai (e como ele deveria fazer isso), como ele deveria conquistar a moça bonita, e pronto. Ele poderia voltar e conquistar a mão da sua amada sem erro.

Ou será que não?

Na cena prévia à luta com o urso, ele finalmente percebe a verdade: mesmo que ele conseguisse conquistar a moça, ele estragaria a vida dela, e tiraria a sua felicidade. Daí a coincidência, corpo revive, “estou pronto para luta”, Dano percebe que sua felicidade significaria o sacrifício da felicidade da sua amada. A morte do seu novo “eu” acontece definitivamente quando ele vê que não era ela a sua escolhida, por isso Radcliff voa para longe dali (vai ser mais engraçado se você ler depois de assistir ao filme).

Nasce então o último e o mais importante personagem de Dano, Manny “Independente e Não Mais Tão Solitário, Apesar de Louco, Disposto a Reconstruir Sua Relação Com o Pai” Dano.

O filme fecha muito bem as pontinhas, não deixa a desejar nisso, apesar de decepcionar em alguns pontos, merece um bom e bem dado 8,5.

P.S.: Nota biológica, sim, é possível um cadáver peidar tanto, não a ponto de transformar o corpo em um jet-ski mãããããs ainda assim, o Dano mexe muito o cadáver a ponto dele flatular desse jeito! É meus caros, esse é um chamado para realidade bem alto…

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