O Peregrino

*Este é um conto baseado nas obras de H.P. Lovecraft.

Em um canto qualquer do Brasil, em 1911, um pequeno distrito da região sudeste do país se tornou independente devido ao tráfego. Viajantes passavam pelo distrito em direção à Aparecida do Norte, uma longínqua cidade, e aproveitavam do pouco que a região provia. O ponto que mais se destacava na vila, de fato, era a igreja, construída por um cônego que se estabeleceu ali. Com o tempo, outros peregrinos e fazendeiros passaram a residir na região e formar um povoado, originando a cidade de Campestre.

Certa vez, um peregrino chegou à cidade, pálido e extremamente cansado. Ele se intitulava Abdul Al’hazred, um nome muito peculiar para uma região particularmente latina e desprovida de cultura. Por conta de sua febre, precisou ser hospedado na igreja da cidade, especificamente na região mais baixa da arquitetura, e lá era cuidado pelas freiras e pelo padre. Não havia nenhum centro médico na região, todo o povo carecia de cuidados especiais, porém a vida rural era demasiada cômoda para necessitar da busca de um médico em outra cidade. Os fazendeiros mal se preocupavam com a saúde de seus filhos, por que iriam se preocupar com a saúde de um estrangeiro?

    O viajante, contudo, também era bizarro, era raquítico e meio pálido, tendo  cabelo e barba longos, e por vezes falava em língua estranha, que os moradores assumiram ser árabe, e sua história também era desconexa. Dizia ser um vagante sacerdote, mas mal sabia de conceitos básicos de medicina; também lhe era confuso o próprio nome, não se lembra de nenhuma descendência árabe em sua família, porém  tinha certeza que se chamava Abdul Al’hazred. Talvez ele estivesse com uma doença, na verdade; e chegou a tal ponto de cansá-lo e confundir as memórias do pobre homem. Mesmo assim, o padre Arthur, maior conselheiro da pacata cidade, continuou hospedando o estranho peregrino.

    Passaram-se semanas, a  cidade inteira já comentava sobre o estrangeiro árabe que estava possuído por um demônio, ou assim imaginava a prole. De acordo com as freiras, à noite, podiam-se ouvir os gritos de agonia e repetidas palavras desconexas, mas padre Arthur preferiu imaginar que fosse apenas a dor da doença inominável. Convencido de acabar com os rumores, convida o rapaz para ir à Igreja apostólica romana, a única que havia na cidade, mas o peregrino recusa, por razões religiosas. O padre tentou repetir o feito por semanas, mas cansou de ouvir as desculpas de Abdul.

    Dois meses se foram, e o peregrino continuava em repouso, em estado de falência, e o padre não queria mais sustentar o estrangeiro que causava  repulsa aos campestrenses, contudo não podia abandonar um velho caquético sozinho na cidade, além de que os mais extremistas religiosos teriam prazer de apedrejar um muçulmano. Por isso, continuou aos cuidados da Igreja da cidade.

    Em um dia qualquer, as freiras gritavam chamando o padre. Abdul estava gritando e se contorcendo, precisou ser preso em cordas; Arthur precisava analisar o que claramente aparentava uma possessão demoníaca. O estrangeiro estava de olhos virados, gritando e contorcendo. Arthur gritou pela água benta, e começou a recitar versículos bíblicos na tentativa de combater a criatura apocalíptica. Cada verso se tornava mais intenso para o padre, e a criatura continuava resmungando e se debatendo. A água benta ungia a cabeça de Abdul, que em nada melhorava a situação. Então o  estrangeiro começou a recitar palavras indescritíveis:

Yog surtr n’sikh azathoth thotep ya’har – enquanto lacrimejava e gritava em repulsa.

-Saia desse corpo demônio! Este corpo pertence ao reino dos céus!

    Por um instante, o estrangeiro para de se remexer, e seu olhos se fecham. “Abdul, está bem?” questionou a si mesmo. O paciente levanta a mão, como um cumprimento, e Arthur se aproxima e o cumprimenta.

“Eu estou bem. Obrigado por me salvar, padre. Finalmente me libertei.”

“Se libertou?” Pensou ele. As mãos deixaram de se apertar, Arthur passa a sentir um frio por entre seu corpo, e tudo começa a virar cinzas, tudo começa a ter uma conotação mórbida. Sente ser encarado por alguma coisa na escuridão ao seu redor. “Estou sendo possuído?” mas não deixou suas convicções serem abaladas.

    -Saia demônio! – latiu para o abismo. Repetiu as preces, mas nada ouviu. Tudo ruiu ao seu redor, tudo se tornou uma pilha de cinzas ressecadas, qualquer objeto, pessoa ou corpo tornara-se ressecadas brasas pálidas. Não percebia nada além de montanhas intermináveis de cinzas e um horizonte morbidamente cinza. Decidiu vagar pelos arredores enquanto rezava pela trindade.

-ALGUÉM AQUI? ALGUÉM AQUI!? – gritou incessantemente até ficar sem fôlego. Sem retorno.

Dezesseis anos se passaram. Suas vestes brancas de acólito se tornaram um cinza e espesso tecido que só consegue bloquear a luz do sol. Seu corpo está trêmulo e fraco, e ainda tenta se recordar de tudo que vivenciou. Anos no deserto em uma rotina melancólica e pesada o tornou debilitado. Seu passatempo favorito era caminhar até desmaiar, e observar os ventos levarem embora as cinzas. Tornara-se a criatura mais frágil e raquítica do mundo, e nunca pensou que iria invejar os mortos. “Pra onde as vozes vão me levar hoje?” perguntava todos os dias, mas nunca chegou a lugar nenhum. Um dia se questionou se já tivera um deus que o protegesse, ou mesmo um que ele seguisse, se antes havia algum motivo pra estar vivo, um tempo em que poderia sentir  emoções de fato. Mesmo não sendo o caso de reviver seu passado na humanidade, queria ao menos uma morte apropriada; tivera tentado de tudo, desde inanição, mutilação, e até afogamento, mas nada lhe ceifou a vida.

    Um dia, as vozes o guiaram a uma correnteza de cinzas, no fundo do redemoinho cinzento, havia um ser inominável e inigualável; uma criatura que inspirava e aspirava a poeira pelo mundo, cujos pulmões tinham proporções enormes. Não só os pulmões, como todo o esquelético corpo cobria todo o cenário. Era totalmente disforme e bizarro, saíam tentáculos negros por todos os lados, e possuía gigantes olhos perseguidores pelo corpo. O mais terrível semblante que viu em sua fragmentada vida. Disforme e infernal, aquilo era o mais parecido com Deus que Arthur jamais havia visto, e sem pensar se aproximou tentando chamar atenção. Os pensamentos e vozes voltaram a aparecer.

“Então finalmente está aqui o pequeno peregrino.”

– Estou aqui, Deus! Veio me salvar?

“És uma criatura bastante vil, senhor Arthur.”

– Então é este meu nome, meu Deus?

“Me diga, ainda queres viver desolado aqui?”

– NÃO! NUNCA! – berrou o pobre homem.

 “O tempo é disforme e latente aqui, peregrino, muitos antropomórficos adorariam a simples existência nesse local.”

– Me leve embora! Me leve!

  “Como quiser, criatura rudimentar.”

– Senhor padre? Finalmente acordou? – choramingava uma freira.

– Meu nome é Abdul Al’hazred.

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