O Bom Dinossauro: Uma fábula moderna na pré-história

Todos tínhamos na nossa infância um ou outro livro daqueles pequeninos com fábulas bem conhecidas. A raposa e as uvas era minha favorita, mas todos se lembram dos clássicos com coelhos falantes e ratos espertalhões. Assistir a “O Bom Dinossauro” te deixa com esse gostinho na boca. É um filme que, mesmo não se esforçando muito para pensar, te arranca lágrimas e mais lágrimas. Ainda assim, surpreende pela sua composição e pelos seus simbolismos escondidos.

Para começar, a animação do filme consegue ser simplesmente maravilhosa, tão bem finalizada e tão bonita que faz qualquer marmanjo invejar a mão dos desenhistas e modeladores do filme. Arrependo-me de não ter ido assistir em 3D no cinema, experiência que poderia ter enriquecido mais a imagem do filme para mim.

O plot do filme basicamente é o de uma terra que, após o acidente que dividiu as águas (algum meteoro ou coisa assim), não aconteceu. Os dinossauros então se tornaram fazendeiros e razoavelmente racionais. Tudo começa com o nosso protagonista Arlo lutando para conseguir sua marca, sua provação. Os fatos que dividem as águas neste filme sempre são precedidos por fatores naturais, como um dos personagens do filme diz “the storm provides” algo como: “A tempestade dá”. Na sua moral, o filme se trata muito especificamente de como superar o medo e se faz de vários apelos visuais perfeitos para isso.

Vamos lá, primeiro ponto, o dinossauro passa a enfrentar seu medo quando ele se materializa para ele, na forma do spot. Mais do que isso, o nosso bom dinossauro passa por uma viagem de regresso que poderia ser uma viagem de autodescoberta. Aprender a nomear seus sentimentos… Aprender a conhecer seu medo… Aprender a encarar a perda… O filme nos mostra muito mais do que somente o medo. A materialização dos sentimentos do nosso bom dinossauro é seu parceiro durante toda a viagem, o medo não é um personagem abstrato no filme, a sua coragem também.

Segundo ponto, o aprendizado da convivência com seu medo durante sua viagem de regresso faz com que ele entre em sincronia com a sua concepção do que ele é. Não seria coincidência que muitas técnicas de meditação fazem com que procuremos nosso ponto, nosso eu interior, the inner child (a criança interior), Spot que em português é ponto. Pois é, o filme é bem mais do que parece.

Terceiro, a crítica por mais leve que seja ainda é feita. Talvez seja um trocadilho bem ruim mas, herbívoros cuidando da agricultura e predadores da pecuária? Parece ter um sentido apenas, mas não se deixe levar assim, o mercado da pecuária mata mais que o da agricultura. A opressão e a violência neste tipo de sistema chega a ser assustador. Não nos impressiona que os predadores, os senhores do topo da cadeia alimentar (e econômica) são os que cuidam do gado.

Alguns outros pontos que podemos ter perdido, mamíferos são sempre chamados de criaturas. A incrível piada com as frutas podres. O clima de faroeste criado no filme. O fato da história se passar na Ásia apesar do clima de faroeste (olhe para os novos pais do Spot). Para esse filme, eu dou uma nota 7,5; o meio a mais é pela animação e pelas lágrimas que fugiram.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *