] insira o título aqui X | parte 2 [

Stephen, pai de Lily, nunca se sentiu criativo o suficiente para criar histórias à curiosa filha. Isso o fez perceber que a única alternativa que tornava possível deixá-la feliz ao mesmo tempo em que ele não estragava seus contos com uma imaginação deficiente, era contar suas próprias histórias como se fossem inventadas. Lily, claro, não podia tomar conhecimento desse fato, pois o pai se preocupava com sua curiosidade exacerbada e com a influência que certas verdades fariam em sua forma de pensar. Após fechar a porta do quarto de Lily e finalizar a história que contara, percebeu o quanto havia omitido da filha. Era da essência dele romantizar as histórias e dar a elas o melhor final possível, nem sempre feliz, pois mentir não era uma opção. Stephen sentiu-se culpado pela maneira como desenhou seu conto, porém conteve-se em relembrar a si mesmo a verdadeira e completa jornada de Guinevere, que ao contrário do que fez parecer à Lily, fez parte da vida dele assim como da dela de uma forma que a filha jamais imaginaria. Stephen contou os primeiros acontecimentos da forma mais fiel possível, já que anos haviam se passado desde então, mas, em certo ponto, uniu-se a vontade de proporcionar uma experiência do tipo que rende bons sonhos à dor que antes estivera em seu peito e foi reaberta. No tal tempo de justas de cavaleiros e donzelas em perigo, Stephen não era ninguém. Nenhum mago distante ou próximo de Merlin sequer sabia de sua existência. Não era príncipe, não era cavaleiro. Ele sequer faria diferença na própria história se não tivesse ido à floresta justamente no dia em que a jovem Guinevere escolheu fugir de casa e conhecer todo um mundo novo.Na primeira vez em que esteve naquela floresta, sequer notou a existência de um muro tão alto e extenso, porém seus passeios passaram a ser constantes e logo uma intrigante curiosidade passou pela sua mente: “O há de existir além desses muros?”. Ao amanhecer do dia seguinte, Stephen chegou o mais perto que havia chegado daquele território e então viu o que existia além daquele gigantesco paredão. Adianto que mais do que um castelo, reino ou qualquer outra coisa que pudesse existir lá, encontrou um amor o qual não se pode enxergar com os próprios olhos. O tipo de amor que apenas se sabe que é amor. Naquele momento, Stephen viu Guinevere.Pensando consigo no momento presente, percebeu que a pobre Lily podia saber dessa parte da história mesmo que cada detalhe a levasse mais perto de entender a origem das palavras do pai, a veridicidade das mesmas e tantas outras coisas que sem saber a verdade pura e dita, nunca iria sequer suspeitar. Stephen, cada vez mais, resistia ao impulso de correr até o quarto de Lily e contar-lhe, finalmente, a história que por tanto tempo reservou unicamente a si. Ainda sim, isso não faria de toda a sua vida, assim como a de Lily, uma mentira? A mentira atormenta mesmo que acalente e ainda sim a verdade dói mais que mil mentiras bem contadas.Na noite em que Guinevere ultrapassou o muro, carregava maçãs, como ele bem lembrava e  usava botas as quais qualquer um em sã consciência saberia não serem perfeitas para caminhar pela floresta. Elas eram simplesmente lindas. Ainda pior, a moça usava uma capa de veludo. Stephen costumava inventar a cor para a filha por não se lembrar de forma alguma. Não enxergava bem as cores. Viu, então, a garota mais linda que seus olhos defeituosos já tinham visto pontar por sobre o muro. O que mais lhe deixou encabulado foi o fato da menina não estar com medo, pelo contrário, viu nela aventura estampada no rosto.Observando-a descobrir um novo mundo e olhar excessivamente as estrelas, viu que seus olhos, ao longe, marejavam de sono. Então, a imprudente Guinevere adentrou a floresta e dormiu. Stephen nunca tinha visto ninguém dormir, aliás, não conhecia ninguém tão profundamente a ponto de ver tal pessoa em seu estado mais vulnerável de existência. Dois passos. Três. Quatro. Dez. Estava de frente para um anjo adormecido. Logo viu se tratar de uma princesa, não por suas vestes, cabelo penteado, ou qualquer coisa do tipo, mas sim porque até mesmo seu respirar era gracioso. Viu-a tremer e resolveu ir ao chalé mais próximo buscar cobertas para a graciosa princesa que conquistara seu coração.  Quando retornou, ela não estava mais lá.

 

Primeiro pensou ter sonhado. “Não acredito que realmente pensei que alguém como ela, mesmo que sem saber, apareceria no caminho de alguém como eu”. Depois pensou onde uma princesa poderia ter ido tão tarde da noite. A resposta foi rápida em sua mente, se não instantânea. Piratas.

Enganam-se aqueles que acreditam que piratas são seres dos mares e exclusivamente dos mares. Sua casa é o mar, mas ninguém fica o tempo todo dentro da própria casa e não é no mar que eles encontram absolutamente todas as suas “formas de sustento”. Claro que nem todos são vis, Stephen conhecia um pirata de bom coração que apenas não tinha coragem suficiente para escolher um caminho diferente do que o destino lhe impôs. Porém, a maioria dos piratas são criaturas medíocres e Guinevere, dormindo da forma mais doce e pesadamente possível, foi levada por eles.

Stephen imaginou onde eles poderiam tê-la levado. Não sabia e não buscou saber já que simplesmente voltou ao chalé com os vários cobertores e só dormiu. Nunca fora muito esperançoso e já lhe parecera honra demais permitir que seus olhos ruins vissem a coisa mais linda que, para ele, existia no mundo. Portanto deixou-se respirar, nada demais, só respirar.

Ao raiar do sol, respirar já era quase impossível. Não era só uma moça raptada, mas alguém que não conhecia e sequer havia se contaminado com a maldade do mundo até então. Como pôde ser tão egoísta? Sentimentos não se entendem por isso Stephen se cansou de respirar e ainda que não fosse um cavaleiro majestoso ou um rei em toda sua glória sabia que se alguém podia salvar a princesa, esse alguém era Stephen Dragon e era o que ele ia fazer.

O que houve depois não se pode explicar, foi tudo muito rápido. Ele olhou as estrelas e acredita que ela também, essa parte da história não poderia ser inventada. Uma estrela minúscula repousou no céu, e foi então, como contara à Lily poucos momentos antes, que aconteceu. Um som estrondoso alcançou todos os ouvidos, e uma explosão de cores surgiu. A moça não parecia nervosa, pelo contrário, seu rosto parecia o de quem tem um oração atendida depois de muito pedir. Ela cumprimentou o imenso dragão de fogo e não só disso, mas de água, terra, luz e tudo que se pode imaginar mas não descrever. Como diz a história, o apelidara de Príncipe em seus sonhos.

O Príncipe dragão resgatou Guinevere das garras dos temidos piratas, e sua alma sonhadora e aventureira a fez desejar dormir por mais uma vez no mais alto que seus sonhos seriam capazes de alcançar. Nas costas do dragão, ela adormeceu, como diz Stephen, em meio às nuvens.

Algumas horas atrás lembra-se de ter dito à pequena garotinha que todas as histórias têm finais felizes se assim quiser o autor. A verdade implícita era que nunca foi uma escolha do autor, foi uma escolha do destino. Stephen precisa continuar se lembrando, ainda que não queira. De que vale ter uma história que não pode ser contada por não lhe pertencer?

Amanhece após o final do conto e Guinevere acorda, ainda que sequer por um segundo, sua mente tenha descansado. Ela ama o dragão antes mesmo de conhecê-lo, parece loucura mas mesmo que o amor se sinta, a maior parte dele se sabe. Apenas isso. Logo vê que o dragão também despertou e percebe que sua aventura não começou quando pulou um muro, foi sequestrada por piratas ou invocou-o. Ela começa agora.

Lentamente Príncipe, como o chama, a desce até que chegue ao chão. Guinevere tem tantas perguntas. Ele é a criatura mais linda que ela já viu em toda sua vida. Em meio a tantas dúvidas a mais tola entre elas, em sua opinião, é que sai de sua boca.

“Há quantos anos você existe?” , ansiosa, teme estar certa quanto à ideia de que assim que estiver em segurança, ele suma.

“1785.”, não existe nada em sua voz que revele qualquer coisa, mas Guinevere se alivia. “A cada cem anos uma nova cor surge em minha pele e a cada cem anos uma cor deixa meus olhos para que seja vista pelos seus.”

O dragão, metamorfo como só ele mesmo poderia saber, transforma-se lentamente em homem deixando de ser escamas e cores, passando a ser pele e um só tom. Ele é lindo. “Como alguém com quase dois mil anos poderia ser tão bonito?” Guinevere não entende absolutamente nada porém sua paixão só aumenta. Nunca acreditou em relações tão romantizadas, o homem também não, mas podem-se, ao mesmo tempo, ouvir declarações genuínas de ambas as bocas com ambas as vozes.

Stephen para por um momento de se lembrar, de se ferir. Começa a olhar fotos de Lily em porta-retratos pela casa. Lembra-se do acidente fatal que matou seus pais quando nascera e de como sentiu naquele momento que a vida daquela garotinha, agora, era responsabilidade dele. Ela sequer sabia o que era um pai ilegítimo ou não biológico, mas o amava com todas as forças e ele sabia. Sabia que até o fim do mundo a protegeria e sabia que o final feliz que ele perdeu seria feliz se Lily fosse feliz. Tudo o que lhe restava era dar a ela a melhor vida que pudesse oferecer. Ele prometera.

“Você se apaixonaria por uma simples humana que poderia morrer a qualquer momento?”, Guinevere sequer contém seu desejo de passar o resto de sua vida ao lado do homem dragão Príncipe.

“Já estou apaixonado, Guinevere”, seu rosto adquire um sombra leve de tristeza, “Mas até mesmo eu, sei que não suportaria vê-la morrendo de velhice e passar o que sobrar de minha existência que você exista no mundo.”

“Você tem sua eternidade. Se cada momento de minha curta vida eu estiver ao seu lado, também terei a minha. Nunca serei feliz se não puder estar com quem amo.”

“Então serei feliz em fazer de sua mortalidade, eterna. Mas não suportarei o momento em que você deixar esse mundo. Eu sequer vou ver a cor de seus olhos, ou de seu cabelo durante toda sua vida, como pode pedir que eu te ame para que te perca?”

Olhos lacrimejam por ambos os lados.

“Sempre estarei aqui, nossos filhos terão filhos, que terão filhos, e assim terão netos e sei que em cada um deles terá uma parte de mim. Sei ainda com mais certeza que você cuidará deles pra toda a eternidade. Eu quero essa aventura com todas as minhas forças.”

“E eu quero essa aventura com todas as minhas forças.”

“Agora me diga, Príncipe. Qual o nome de quem fará de minha vida a eternidade e me permitirá fazer da sua, eterna? ”

“Prometo que daqui a dez, cinquenta, cem anos ou para sempre, cuidarei de cada pedacinho seu que vier a existir nessa terra.“, ele hesita por um instante, “Meu nome é Stephen.”

“Muito prazer, Stephen. Chamo-me Guinevere.”

Stephen deixa de se lembrar.

Lily então desperta de seu sono, assim como do sonho mais lindo que já teve. Ela ainda está no orfanato. Ainda sonha em ter um pai, ou uma mãe, ou alguém. Sonhos são para ela o que as estrelas são para Guinevere e ela se sente segura assim. Não é disso que se trata? Finais felizes nada mais são que o início de uma nova jornada. Se Lily é a autora de sua própria história não tem motivos para não sonhar seu final feliz.

 

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