] insira o título aqui X | parte 1 [

A noite caiu sobre aquela metade da Terra.
Em um vilarejo rural, há um chalé. Um chalé com telhado de ardósia e uma vela em cada janela. E nesse chalé tem um quarto. Um quarto com luas prateadas e estrelas douradas pintadas no teto. E nesse quarto tem uma cama. Uma cama com uma colcha bordada com inúmeras flores. E nessa cama tem uma garota. Uma garota chamada Lily, que não consegue dormir.
“Papai, você não vai me contar uma história?”, a garotinha pediu.
“Está tarde, minha Lily.”
“Por favor, Papai. O escuro me assusta. Mas os seus contos me fazem ter sonhos alegres.”
“Muito bem. Feche os olhos, minha querida Lily, que eu vou lhe contar uma história. Uma vez, no tempo de cavaleiros corajosos e belas donzelas, vivia uma jovem elegante e intrépida que atendia pelo nome de Guinevere. Ela tinha olhos verdes como esmeraldas e o cabelo escuro como a noite, cheio de ondas como o mar. Assim como você.”
A garotinha deixou escapar um pequeno sorriso, e o pai continuou.
“Guinevere vivia na torre mais alta do castelo de seu pai, o rei, mas não se engane, querida filha, diferente de outras princesas, Guinevere não vivia na mais alta das torres por causa de uma madrasta má – sua madrasta era, na verdade, muito bondosa e a tratava como filha, enchendo-a de doces e mimos. O motivo pelo qual a princesa escolheu viver na alta torre era o mais curioso: ela afirmava ter uma alma sonhadora, de modo a viver com a cabeça nas nuvens, por isso teria que viver o mais alto possível para fazer jus a sua personalidade.
“Deve ser dito também que Guinevere era uma aventureira nata, e todos os dias saía para explorar o enorme castelo e descobrir o que estivesse esperando ser descoberto. Entretanto, um dia, enquanto andava pelos jardins à procura de possíveis tesouros e coelhos saindo da toca, a jovem princesa se deparou com o enorme muro de pedra que marcava os limites do castelo. Ingênua como era, Guinevere encarou o impotente emaranhado de pedras e demorou mais do que alguns segundos para perceber que nunca tinha ido a lugar nenhum além daqueles muros e se perguntou se realmente poderia se declarar uma aventureira, visto que tinha conhecido tão pouco do mundo.
“Naquela noite, ela se deitou na cama do quarto mais alto da mais alta da torre e não caiu num sono com belos sonhos com a rapidez de sempre, ao invés disso, Guinevere pensou e pensou, e depois, pensou mais um pouco. Pensou tanto que o que antes era a noite iluminada pelas belas estrelas se transformou na claridade de um novo dia, e enquanto os raios solares entravam pelas frestas da sua cortina com desenhos de caracóis, Guinevere se decidiu.”
O pai fez uma pausa dramática e esperou a reação da filha, que não demorou muito a vir.
“O que ela decidiu, papai?”, perguntou a garotinha enquanto arregalava os olhos. “Não me diga que ela vai sair do castelo.”
“Era exatamente isso que eu estava prestes a dizer, minha Lily. Você é uma garota muito esperta.”, enquanto a filha dava o segundo sorriso daquela noite, o pai deu continuidade à história.
“Guinevere passou a manhã planejando a sua aventura para fora do castelo. Como não sabia o que a aguardava do lado de fora ficou se questionando se estaria sendo protegida de algum mal ou privada de alguma maravilha. Sendo a otimista incurável que era, pensou que, com toda certeza, estaria sendo privada de alguma maravilha, afinal, do lado de fora também existiam pessoas, e não eram elas todas maravilhosas?
“Munida de algumas maçãs, suas melhores botas de caminhada e uma longa capa de veludo azul, a princesa foi até o jardim aquela noite e se dedicou arduamente a escalar o muro procurando não chamar atenção de ninguém, ao mesmo tempo em que tentava não cair e quebrar nenhum osso. Depois do que pareceram horas, Guinevere finalmente chegou ao topo, sentou-se e olhou para o céu enquanto tomava fôlego e se preparava para a longa descida que a aguardava ‘As estrelas são ainda mais lindas daqui’, ela pensou e logo depois começou a descer.
“Quando chegou ao chão, Guinevere olhou para frente e teve uma grande surpresa: diante dela só havia árvores e mais árvores, a escuridão sem fim da noite e o barulho das corujas. Mas ela era uma garota corajosa, e não pensou duas vezes antes de explorar o desconhecido, afinal, ela saiu do castelo em busca de aventuras, e as aventuras por muitas vezes se mostram provações de coragem. Deve-se dizer, no entanto, que a coragem não significa a ausência do medo, e por isso, ao adentrar a floresta, Guinevere sentiu um frio na espinha e se encolheu na maciez da sua capa enquanto fechava os olhos e repetia para si mesma que enquanto conseguisse ver suas tão amadas estrelas, tudo ficaria bem.
“O tempo passou e o sono foi deixando seus pensamentos nublados e confusos enquanto enganava seus olhos e mexia com a sua lucidez. A princesa olhou para um monte de folhas e concluiu que ele parecia uma cama extremamente confortável para uma noite como aquela, afinal, que mal faria descansar e continuar a exploração tão logo a manhã chegasse com a claridade do sol e o cantar dos passarinhos?
“ ‘Não fará mal algum’, pensou Guinevere enquanto se aconchegava em meio às folhas e sentia o cheiro da terra. E tão logo quanto decidiu adentrar a floresta, ela caiu no sono. Infelizmente, minha menina, o mundo não planejava deixar que ela dormisse com tranquilidade naquela noite, e a floresta estava cheia de perigos. Desde feiticeiros a trolls em busca de sangue, mas o que a aguardava era muito, muito pior. Vou deixá-la tentar adivinhar qual perigo aguardava nossa corajosa princesa.”
“Já sei!”, respondeu Lily com um entusiasmo mal contido, “Tinha um lobisomem. Não, melhor! Era um gnomo malvado que queria os sapatos dela. Ou ainda mais assustador: ela encontrou um vampiro que brilhava!”
Tentando segurar a risada, o pai decidiu, por fim, dar a resposta, “Não, não e não, minha querida. Sinto em dizer que não era nada tão assustador quanto o gnomo, mas chega bem perto: eram piratas.”
“Piratas, papai?”
“Sim, eram piratas extremamente malvados. Eles levaram a princesa para o navio enquanto ela sonhava com nuvens de algodão-doce, e quando ela acordou, para a sua surpresa, deparou-se com a imensidão do mar azul.”
“Guinevere nunca tinha visto o mar, e ficou encantada com as águas que balançavam abaixo dela. Rapidamente, foi agradecer seus raptores, ingênua como era, por lhe proporcionar aquela vista esplêndida, afinal, não é todo mundo que dorme em uma floresta assustadora e acorda em meio caminho de outro continente. Aquela aventura estava ultrapassando suas expectativas!
“Para sua enorme insatisfação, nossa princesa não chegou muito longe. Ela estava amarrada ao mastro principal do navio, e quando prestou menos atenção ao mar e mais atenção ao seu redor se deu conta de que não estava olhando para rostos extremamente amigáveis que desejavam ardentemente fazer o bem. O que encontrou foi exatamente o oposto, e por isso ela decidiu que os piratas eram os seres mais assustadores de todos, com seus rostos vis e sua falta de honra. E se antes, ela achava que só existiam pessoas maravilhosas, abriu uma exceção e tirou os piratas da lista.
“Guinevere estava relutante em admitir, mas não esperava ver a maldade na alma de outro ser humano. Talvez ela esperasse isso dos gnomos, dos lobisomens e até mesmo dos vampiros – que não eram necessariamente humanos por completo – mas não esperava aquilo dos seus semelhantes. Isso foi um baita choque para a princesa, mas ela não disse nada e olhou para o céu, desejando ardentemente que a noite chegasse para que conseguisse se libertar.
“Horas se passaram e a noite finalmente chegou, mas a princesa não ficou feliz. Nuvens encobriram o céu e Guinevere se viu pela primeira vez experimentando do desespero. Ela não conseguia ver as estrelas, e se não conseguia ver as estrelas nada ficaria bem. Mas ela já tinha passado por tanta coisa aquela noite e visto tantas coisas novas que nunca sequer havia sonhado ver, que se permitiu ter uma pontinha de esperança. Bem pequeninha, mas ainda existente naqueles olhos verdes que lutavam desesperadamente para segurar as lágrimas. Ela pediu baixinho que uma estrela aparecesse, então olhou para cima e lá estava: uma estrelinha bem pequena, mas era mais do que o suficiente. Guinevere fechou os olhos e se concentrou.
“Foi então que aconteceu. Ouviu-se um barulho alto e uma explosão de todas as cores, e tudo isso vindo diretamente do céu. Enquanto os piratas olhavam espantados para a fera a sua frente, Guinevere sorriu e com um meneio de cabeça como quem diz ‘Olá’, cumprimentou o dragão cor de fogo a quem carinhosamente havia apelidado de Príncipe em um dos seus sonhos na cama da alta torre do castelo…”
“Espere, papai. Um dragão? Como isso foi acontecer? Ela estava em uma floresta e de repente temos um dragão em pleno mar nascido de uma estrela. Isso é ainda mais absurdo que piratas aparecendo em florestas. Não consigo imaginar como essa história termina. Estou começando a duvidar de que vai ter um final feliz.”
“Todas as histórias têm finais felizes se assim o autor delas desejar, minha Lily. E é assim que eu desejo que esta termine. Mas desconfio que já esteja tarde, querida. O que acha de deixar o final para outra noite?”
“Mas eu preciso saber o final agora ou não conseguirei dormir e precisarei de outro de seus contos. Como a história termina?”
“Sinto dizer, querida Lily, que no fundo nem toda história tem um fim, mas o final desta aventura termina como todas as outras. O Príncipe resgata a princesa e ela decide que quer dormir como dormia em sua torre, e com a pequena e quase imperceptível diferença de estar montada em um dragão, Guinevere adormece em meio às nuvens.”



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