In Memoriam

Faleceu, tragicamente, e há pouco tempo, o meu amor por ela.

Atestou-se o óbito tornando-se conhecida a causa mortis: incapacidade do sentimento de escapar de meus ilimitados campos mentais. Tão utópico e platônico fora ele que sequer materializara-se no mundo das coisas concretas. O pobre coitado esquecera-se, justa e principalmente, da mais óbvia premissa de sua existência: reciprocidade. Infelizmente, nesses casos, a autossuficiência é inútil. Não havia meios de se promover uma miraculosa salvação. E, portanto, desfechou-se aquilo que sequer começara.

Viúvo, encarei lancinante dor que já ameaçava-me percorrer a carne desde quando deparava-me com a mais remota possibilidade de perecimento. Junto dela, derramei um sofrido e quase que infindável pranto. Aquilo aturdira-me a alma. Contudo, o que um reles mortal poderia ter feito diante de seu inexorável destino?

Encaro tudo o que se findou como um castelo que se constrói na areia. Forte e imponente. Porém, configura-se como uma mera ilusão. Não adianta crer nas suas virtudes e potenciais sendo sua natureza efêmera. Por mais belo e promissor que pareça, basta uma pequena onda para que ele se desfaça.

Das recordações desafortunadas, permanecem inúmeras, tal como o momento em que adicionei um pouco de esperança ao inverossímil, imaginando que ele se tornaria verdadeiro. Ora, como pude deixar-me levar por tão notória tolice? Às vezes, frente aos desígnios desse amor, fiz vista grossa à lógica e desafiei brutalmente a razão. Afinal de contas, ninguém mandou que fossem tão amargas e insensíveis comigo.

Mesmo com uma vida tão curta, houve momentos em que esse amor fez-me peregrino e conduziu-me a um paraíso distante, repleto de magias que provocaram sensações indescritíveis. Entretanto, percebi a tempo que é contraproducente mergulhar-se em sonhos irrealizáveis e deixar outros tantos, mais possíveis, escapar.

Enluto-me em homenagem ao que de bom se sucedeu, enquanto calmamente recupero minha tão prezada sanidade, perdida por entre os emaranhados de sandice que se ramificaram do sentimento falecido.

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