Filhotes de Cuco

Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição.

Malaquias 4:6

Apesar dos pesares, nada mais oportuno para se falar em pleno dia dos pais do que sobre a peculiar ave Cuculus canorus, popularmente conhecida pelo nome “Cuco”. Peculiar, pois possui um interessante sistema de sobrevivência, visando ao bem-estar e conforto dos seus ovos:

Os cucos não constroem ninhos. Eles levam os ovos para os ninhos alheios, de outras aves similares a eles, para que estas mesmas outras aves choquem e alimentem o pequeno filhote cuco, até que amadureça e faça com seus próprios ovos o que o papai e a mamãe cuco fizeram por ele, perpetuando assim a espécie – e o péssimo hábito de jamais criarem os próprios filhotes.

Quantas de nossas crianças são “chocadas” como filhotes de cuco? Sendo um exemplar desta categoria, de certa forma, posso dizer que (especialmente nestas últimas gerações chocadas) somos uma maioria impressionante – filhos e filhas que, por mil e um motivos diferentes, deixam o ninho dos pais para serem criados por adultos alheios… Contudo, nosso meio-irmão alado é condicionado por sua natureza a perpetuar a espécie e manter esta realidade de ninhos alheios e estranhos – mas e quanto a nós? E quando nós, filhotes de cuco em ninhos estranhos, mesmo recebendo todo o amor e afeto dignos de uma cria consanguínea (ainda que, infelizmente, este não seja o caso na maioria esmagadora das vezes)?

E quando esses “filhotes” crescerem? Farão como seus pais, como nosso meio-irmão alado, e repetirão este triste paradigma de jamais construir um ninho para suas crias, de sempre depositar os filhotes em meio a outros pássaros, estranhos e diferentes? Qual será a canção que esta geração de “cucos” irá cantar quando finalmente maturar e se tornarem adultos…?

Será que estes novos cucos cantarão o amém amargo de Brás Cubas, ao fim de suas memórias póstumas – “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”?

Ou então, cantarão a súplica ansiosa (e vazia) de Mary Elizabeth McGlynn, que reconhece a necessidade primária de amor, e sua incapacidade de retê-lo em si mesma, em sua música “I Want Love” – “Eu preciso de um oceano de amor, embora eu saiba que os buracos ainda permaneçam”?

Ou então – esperança das esperanças! – esta nova geração de pequenos cucos poderá cantar, mesmo em meio às agonias e tristezas mais profundas, um cântico de confiança e amor supremos, tal o que Jesus dirigiu ao seu pai, instantes antes de padecer na cruz – “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”?

A todos os pais (consanguíneos, adotivos, simbólicos – todos eles), nossos mais sinceros parabéns por seu dia! E lembrem-se: criem em seus filhos os pais que vocês gostariam que seus netos tivessem – ou eles também serão chocados como pequenos cucos, filhotes perdidos em ninhos estranhos… E que aquele que primeiro foi o Pai de todos nos ajude a criar nossos filhotes com as mesmas sabedoria, graça e misericórdia com as quais Ele nos tem criado!

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