Famintos

Ofegante, chegou aos dormitórios. Pensava apenas em conseguir ajuda. Aquilo que acabara de presenciar não poderia ser fruto de sua imaginação, afinal a cena fora tão real e, ao mesmo tempo, surpreendentemente assustadora. Forçou a maçaneta da velha porta de madeira, e nada. Após uma nova tentativa frustrada, olhou para trás e fitou o matagal do lado oposto da rua. Encarou os arbustos por alguns instantes, mas se deu por convencido de que a única força sobre-humana ali era o vento.

Apesar disso, permanecer na soleira do dormitório bem no meio da noite não era algo prudente. Resolveu, então, que gritaria. Os garotos haveriam de acudi-lo em tão desesperador momento. Pigarreou fortemente e berrou:

– Abram a porta!!! Rápido!!

Poucos segundos de modorrento silêncio quase o desanimaram, mas, de repente, ouviu um barulho no interior da construção. Uma luz se acendeu e – pela graça de Deus, como ele pensou – dois jovens rapazes apareceram diante de seus olhos.

– Preciso da ajuda de vocês. Tem algo na cozinha! – disse o inspetor, visivelmente aterrorizado.

Os dois alunos se entreolharam. Conheciam o inspetor e a sua fama de medroso. O pobre coitado já ficara duas noites em claro por causa da “mula sem cabeça que põe fogo pelos olhos e pela boca”. Sabiam que pouco era suficiente para deixá-lo de cabelos em pé. Porém, o mais velho deles respondeu que iriam até lá averiguar o caso.

Rumaram, pois, os três em direção à cozinha, que ficava a alguns metros do final do morro onde estava o dormitório. De longe, já era possível observar que algumas chamas dançantes iluminavam o aposento. Avançaram mesmo assim e, ao chegarem na janela, em um desses raros episódios nos quais a curiosidade supera o medo, o inspetor se projetou para cima e espiou pelo vidro.

Os dois rapazes, agachados, aguardaram pela resposta. Receberam-na através da expressão facial do velho: horror. Munidos de coragem, ergueram-se e também olharam para dentro. A pia, acumulada de panelas sujas. A pequena mesa, em que os cozinheiros preparavam alguns alimentos, um tanto quanto bagunçada. Contudo, o que realmente despertava a atenção de qualquer curioso que por ventura resolvesse observar a cozinha naquele momento era a fonte da luz: uma das bocas do fogão estava acesa e, sob ela, havia um grande tacho, cheio do que aparentava ser doce de leite. Pouco acima, pairando no ar, uma mão mexia vagarosamente o conteúdo. Seguindo o membro, ao contrário das expectativas, não havia sequer um braço, quiçá um corpo.

Era essa a causa do medo do inspetor. Não demorou muito para que os rapazes se contagiassem do pavor de seu acompanhante. Por um segundo, todos trocaram olhares assustados e, como se houvesse um acordo preestabelecido entre eles, puseram-se a correr juntos, de volta ao morro. Mal atingiram o começo da subida, o inspetor parou, com a respiração intermitente, dizendo:

– Fantasmas! Não entendo porque não nos deixam em paz…

Pobre inspetor. Aqueles “fantasmas” estavam mortos era de fome. A verdade é que, naquela época, certos alunos, os mais travessos da antiga Escola Agrícola, costumavam invadir a cozinha durante a madrugada. Nessa ocasião, um deles avistara o velho ao longe. Assim, tiveram tempo suficiente para que se escondessem. Porém, para que o doce não queimasse, alguém continuou a mexer, apenas com a mão erguida, o que nunca poderia ter sido compreendido pelos olhos medrosos do inspetor. O medo aniquila a lógica, ao tornar o simples na mais complexa fantasia.

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