Eu Escolhi Você (Clarice e a redefinição do Belo) – Parte 1

Perguntem-se para si mesmos: O corpo humano é belo? Nós nos afastamos da realidade procurando significados de ideais de beleza, procurando pela dama mais bela, pelo príncipe encantado, porque nos incentivam a isso. Cada propaganda sobre casais mostra os mais belos atores formando os mais belos casais. Corremos para a literatura clássica e o mesmo padrão belo (e ariano) se encontra citado nos mais formosos e belos adjetivos.

A realidade não é dura, não é se olhamos para nós mesmos com orgulho do que somos, sem a constante procura por esta vaidade vaga e sem significado. Afinal, sem estes cremes hidratantes e roupas, somos todos os mesmos. Aliás, temos rancor da nossa natureza natural, da nossa natureza humana animal. Racionalidade não é feita de carne. Quando Clarice Falcão procura causar, procura reascender o questionamento pelo repúdio à natureza humana (como dito no Twitter), e não quebra restrições das políticas do youtube. Se impressionar como ela pelo modo como as pessoas reagiram ao clipe é fácil, realmente interpretar as suas motivações também é fácil.

O corpo humano em sua natureza se torna um tabu no momento em que consideramos a nossa natureza como uma vergonha, o filósofo brasileiro naturista Adriano Volponi nos diz: “Nudez não é coisa simples, ela aparece logo nas primeiras páginas da Bíblia e de outros textos fundadores da civilização, afirma Marcelo Bortoloti em sua reportagem para a revista Veja em dezembro de 2008. A verdade é que se Ulisses, personagem de Homero, naufragasse hoje e aparecesse nu diante de sua princesa Nausícaa assim como foi relatado na Odisséia, ainda sentiria uma vergonha e um desconforto enorme. O fato de terem se passado mais de 2500 anos não mudaria a sensação de desconforto do herói e, pelo contrário, sentiria uma culpa religiosa que não existia naqueles tempos. O resultado de morder o fruto proibido é o sentimento da vergonha, fraqueza e derrota diante de si mesmos e de Deus. Percebemos como é imoral estar nu. Todos nós já sentimos vergonha por alguma coisa. E isso parece ser normal. Quantas vezes não nos sentimos ‘nus’ diante dos olhos dos outros? Esse sentimento de vergonha e pudor é o que Dietrich Bonhoeffer identifica como a indestrutível lembrança do ser humano da sua separação da origem, é a dor decorrente desta separação e o desejo impotente de desfazê-la. Perdemos nossa essência original.”

Quando Clarice Falcão declara sua opinião contrária a esse pensamento do corpo como vergonha e cria tanto alvoroço, diz não esperar por isso. Mas seu objetivo de reascender este tipo de pensamento nas pessoas foi concluído. Citando as palavras de Clarice dadas ao blog Uai: “Então, se o vídeo é artístico, categoria na qual eu acho que se encaixa, sendo um videoclipe de música, não seria censurado. Na verdade, eu nunca esperei que fosse essa gritaria toda. O clipe foi feito em casa, sem a menor pretensão, com amigos. Se o clipe tiver alguma importância, e eu acho que não tem, foi de sublinhar esse ódio, que eu acho incompreensível. É o ódio aos genitais”.

Dizer que o clipe foi feito unicamente com fins comerciais (hit dos discursos de ódio proferidos a ela) se invalida quando artistas, em sua maioria quase completa, são artistas por profissão. É nestas horas que é sempre bom prestar atenção nas argumentações, discursos de ódio são mais fáceis de se proferir do que discursos críticos.

Termino por dizer: O corpo humano, pela sua natureza, é belo, com todas as imperfeições. As ideias envelhecem, assim como nós, e temos que abrir espaço para as novas.

Na segunda parte do texto apresento minha interpretação pessoal sobre o clipe. Pois qualquer obra de arte não necessariamente se fecha em uma única interpretação.

1 comentário em “Eu Escolhi Você (Clarice e a redefinição do Belo) – Parte 1”

  1. Franciane Gonçalves

    Uma outra visão poderia ser o fato de que o estilo das músicas da Clarisse Falcão não é o mais bem aceito e mais ouvido pela população brasileira. Aliás, podemos comprovar isso com os clipes de MC’s e outros funkeiros que bombam na internet e não são censurados.

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