Esqueça a segurança, seja notório: Consciência Negra

Vamos analisar os discursos populares:
“Consciência negra? Não precisa”.
“Cotas raciais? Não precisa”.
Por que questionam as políticas públicas de inclusão social, mas não se dá o mesmo foco de indignação às causas dos problemas que tornaram necessárias tais ações?
Por que falar de Consciência Negra? Muitos porquês que precisam de um certo tempo para digerir respostas.
Antes de erguermos a bandeira da “diversidade” só para fazer bonito para o nosso próprio ego, vamos tentar compreender o que isso representa de verdade. O Brasil viveu séculos de escravidão, um período marcado por violências que deixaram suas marcas até hoje.
Após a abolição, não acompanharam ações sociais para a inserção dos então recém-libertos na sociedade. A realidade foi de políticas de branqueamento da população, com desculpas de que os negros eram seres primitivos e mais propensos a doenças etc… No entanto, nenhuma preocupação em revisar a sociedade que, até então, vivia feliz com um sistema em que a mão-de-obra escrava era algo natural, aceitável ou mesmo incentivada pelo status que a posse de escravos oferecia aos seus senhores. Uma vez “livres”, os escravos tinham todo um mundo a conquistar ao lado de suas famílias, finalmente usufruindo de todos os direitos sociais que, por três séculos, foram negados. Tudo ficaria bem a partir daí não é mesmo? Ahaha. Lógico que não!
As questões sociais enfrentadas, principalmente pelos mais pobres, estão todas interligadas. Desde um sistema educacional ruim, até as falhas do sistema penal, passando por um mercado de trabalho pouco inclusivo. Você já parou para verificar quantos negros existem em seu círculo social, faculdade ou trabalho? Então, tire um tempinho e repare ao seu redor. Os negros representam mais da metade da população brasileira, mas são a minoria em espaços considerados “privilegiados” e maioria em espaços considerados marginalizados. Um recadinho: não ceda à tentação de resumir tudo à meritocracia.
20 de novembro, data relembrada pela morte de um dos heróis negros brasileiros (Zumbi dos Palmares).
Em 2003, foi decretado pelo projeto de lei número 10.639, esse dia como o Dia da Consciência Negra em memória do personagem histórico que representou a luta do negro contra a escravidão, no período do Brasil Colonial. A criação dessa data foi importante, pois serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da identidade nacional. Porém, vamos largar o conceito de culpa e aceitar o conceito de responsabilidade. Não é ético que se abra mão de repensar as estratégias de enfrentamento ao racismo estrutural e a violência contra a população.
Muitos dizem que o Dia da Consciência Negra é um dia de segregação. Se ao branco não é negado o direito da existência, se o branco não tem sua humanidade questionada, se ser branco é considerado o “normal e padrão” social, e, de acordo com a nossa realidade, foi criada uma hierarquia social ao longo da história, o que há de segregacionista na luta pelos direitos de quem está na base dessa pirâmide? Questionar uma sociedade racista nunca significou prejudicar pessoas não-negras. O racismo é uma arma tão mortal e aceita, a ponto de os privilégios concedidos por séculos aos brancos serem vistos como direitos inquestionáveis, e a políticas que visam estender esses direitos aos negros são vistos como privilégios – HEEEEEEY! Onde está o privilégio em ser o povo que mais morre violentamente, não ser aceito em muitos lugares, ou ser o que menos ganha dinheiro? Dizem que, na verdade, não precisamos de um dia de consciência negra, mas sim, de 365 dias de consciência humana. Mas como iremos fazer uma conscientização humana se muitos não aceitam estar no mesmo lugar que os negros? Querendo ou não, uma “consciência negra” faz parte da construção da famosa “consciência humana”.
A partir desde texto, estreio minha série – Esqueça a segurança, seja notório – em que irei apresentar conquistas dos negros ao redor do mundo.

1 comentário em “Esqueça a segurança, seja notório: Consciência Negra”

  1. Bruno Tardin

    Recomendo a leitura das “Cartas ao Imperador”, de José de Alencar, dirigidas metonimicamente a D. Pedro II: desde aquela época já havia alguns (poucos) atentos para várias das questões que você levanta em seu texto… Infelizmente, nossa política nunca foi antecipatória, mas reparatória – o que se observa facilmente ao olharmos nossa história passada e os dias de nossa contemporaneidade… Ansiosamente à espera dos próximos textos!

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