Desgraça conveniente

Quanta desgraça. Talvez seja um jeito estranho de começar qualquer temática, mas o que mais declarar sobre o caos que o Brasil está nesses últimos tempos? Crimes intermináveis e cada vez mais inconcebíveis, como assaltos, estupros e assassinatos. Com eles, percebemos muito mais do que as atrocidades que o ser humano pode cometer, mas também o quanto elas são contagiosas e convincentes. Digo isso porque moro em Machado, que é uma cidade bem pequena e que possui muitas carências. Quando essas não são de recursos, são pessoais e partem da própria população.

Quem nunca fingiu estar doente para faltar à escola ou para ter aquela atenção especial dos pais? É algo bastante normal quando se é criança, pois embora a doença seja ruim, o pequenino pode considerá-la o caminho para conseguir o que quer. Mas e quando o uso da mentira passa dos limites e atinge horizontes preocupantes? Ou pior: agentes e assuntos preocupantes.

Darei um exemplo bem específico: recentemente, houve a divulgação de um suposto estupro coletivo sofrido por uma adolescente no Rio de Janeiro. Obviamente, um caso chocante e que gerou uma grande mobilização nas redes sociais. Ou seja, atraiu atenção. Pois bem, o que chocou a população machadense em sequência foi uma denúncia local de duas adolescentes, que afirmavam ter sofrido um estupro coletivo, situação parecida com o crime que acontecera pouco tempo antes. Tal relato foi motivo de revolta e choque nos habitantes da cidade até que, após uma investigação, foi descoberto que tudo não passou de uma invenção.

Aí está o problema. É difícil esquecer um crime revoltante e há pessoas que acham uma boa ideia fazer uso deste para serem lembradas. Percebe? Um caso terrível e muito sério de estupro coletivo, cuja denúncia e repúdio são indispensáveis, acaba por seduzir e vislumbrar uma juventude cada vez mais desesperada por atenção. Chegamos a um ponto em que adolescentes mentem passar por situações deploráveis apenas para serem percebidos. Além disso, há relatos de que todo o caso tenha sido planejado pela irmã de uma das “vítimas”, possivelmente para reforçar a rivalidade entre bairros ou gerar um desconforto no bairro onde os suspeitos moram, que é muito grande e ramificado.

Tudo isso revela uma carência que não é suprida nos quesitos básicos. Não estendo esses exemplos apenas aos adolescentes, mas a todos os cidadãos. Afinal, as desgraças acontecem e são divulgadas com o objetivo de alertar cidadãos, almejar justiça e incentivar possíveis denúncias de casos semelhantes. Muitas pessoas têm acesso a essas informações. O que impede que um adulto desprovido de recursos e qualquer apoio social enxergue nesses casos uma oportunidade de ser visto?

Nós bem sabemos como a justiça é difícil de ser estabelecida diante de todos os obstáculos que enfrenta nos inúmeros processos que existem. No entanto, as pessoas devem ter bom senso e tratar crimes e denúncias com a seriedade que devem ser tratados. É por isso que a educação, o investimento governamental em projetos sociais e o convívio familiar devem ser voltados para a orientação, para que os cidadãos, desde os mais novos até os mais velhos, saibam que é possível se destacar pelos motivos certos e que tenham oportunidades para isso.

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