Conhecidos estranhos

Éramos jovens, intensos, cheio de planos e sonhos, mas ficarmos juntos não era um deles. Aqueles 20 e poucos anos eram de compromissos o tempo todo. Íamos da faculdade pra casa, ele ia à academia e eu fazia projetos sociais nas horas vagas: com tudo isso, ainda sempre dávamos um jeito de ir a um barzinho e deixar todo o resto de lado. Nós éramos felizes, ríamos muito, ele cantava para mim – muito mal, por sinal: parecia um disco arranhado. Mas eu amava ouvir aqueles grunhidos.

Nós nos conhecemos em uma dessas festas por aí, tínhamos amigos em comum, nunca havíamos nos falado. Ele estava bêbado, quase caiu em cima de mim e por um golpe estranho do destino fomos embora juntos. Antes de chegar em casa, ele já estava dormindo dentro do carro, nunca vi alguém em uma posição tão estranha. Torço até hoje pra que ele não tenha sentido dores no pescoço no dia seguinte, porque ele parecia um pardal com pescoço quebrado, dormindo daquele jeito.

A amizade que surgiu entre nós era inexplicável, eu o tratava como uma peça rara, perdida e depois encontrada em um antiquário. Eu me sentia como uma boneca de cristal fino, quebrável e sensível. Ele media qualquer coisa que fazia para mim. Éramos o tipo de amigos que não têm travas na língua, falávamos o que vinha à nossa cabeça e eu não imaginava o que aconteceria depois.

Alguns dias depois de uma festa a que fomos juntos, ele passou a me olhar diferente, quase me beijou quando me deixou em casa depois da aula, e eu, inocente, achava que era tudo acidente, mas ele me tomou pelo braço e disse coisas que eu não imaginava. Sempre fui uma jovem muito dona de mim mesma, e apesar de já ter passado por alguns relacionamentos ao longo da vida, eu não queria me apegar. A proposta que fiz foi de ficarmos juntos sem compromisso nem cobranças, limitei o espaço que teríamos e ele aceitou, passamos a nos encontrar ainda mais.

Eu me apeguei demais.

Falávamos sobre como foi o nosso dia, todos os dias: não conseguíamos dormir sem antes ouvir a voz do outro. Um tiroteio de indicações de filmes e séries acontecia entre nós o tempo todo, mas não vimos nem metade deles e, apesar disso, nunca assistimos a nenhum juntos. Já era tarde demais, havia me entregado e não conseguia controlar, minhas regras haviam sido quebradas por ele, que era pra ser só um amigo. Durante o tempo que passávamos juntos, montamos uma imensa lista de coisas a serem feitas, mas não tivemos tempo para isso, afinal, ele partiu antes que fizéssemos a maior parte delas.

Ele era mais jovem que eu, sua beleza era estonteante, chamava muito a atenção de todos à sua volta. Ele tinha o gênio forte e ainda assim foi uma das pessoas mais sensíveis que conheci em minha vida. Ele também era indeciso, ficava mordido de ciúmes quando algum outro rapaz me chamava pra sair, pedíamos e fazíamos promessas um para o outro e, por um momento, permiti que eu achasse tudo aquilo verdade, mais do que nunca estávamos amarrados um ao outro. Ele parecia ter medo de me perder, mas no fim das contas, foi ele quem foi embora. Disse em poucas palavras que estava confuso, que muita coisa havia acontecido – não foi nada convincente. Nunca entendi o motivo, se era insegurança, se ele encontrou um outro alguém ou se simplesmente… Quis partir. Não fiquei me culpando nem nada, mas por muito tempo tentei entender o porquê de ter acabado. Nunca lidei bem com finais. Eu acreditei algumas vezes que o que passamos seria para sempre – e de certa forma foi, enquanto durou.

E assim, como a peça do antiquário estraga, a boneca de cristal se quebra. Hoje, quando nos esbarramos na rua, parecemos dois desconhecidos, embora tenhamos mudado muito,  eu ainda me lembro como era deitar no peito dele, ainda me lembro do perfume, da pele, do seu cabelo encharcado depois da chuva, e dele dizer que só eu o aceitava, parecendo um cão molhado, dentro da minha casa. Eu ainda vejo seu rosto na esquina, mas, infelizmente, nosso quebra-cabeça não se encaixa mais.

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