Clarice Falcão e a degradação do belo

Quando Clarice Falcão lançou seu novo videoclipe da música Eu escolhi você, que apresenta nudez explícita e foi retirado da rede social Youtube, ela não esperava que houvesse tamanho reboliço. De acordo com a cantora, o que se tinha eram somente genitálias e nada de profundo. Afinal de contas, segundo ela (via Twitter), o objetivo era “causar”. E conseguiu! Como a própria disse: “Gente foi bom enquanto durou”.

O que se pode perceber (e elogiar) de toda essa situação é a visão de Clarice e os que a auxiliaram no clipe. Não como artistas, mas perspicazes analistas comerciais. Pessoas que usaram de meios esdrúxulos para angariar atenção e visualizações. A intenção, como já referido, nunca foi promover crítica alguma. Se fosse, talvez existiriam conexões reais entre a letra e o vídeo. Além disso, não se percebem mensagens de cunho reflexivo no texto, quiçá nas imagens.

Porém, como muitos, devemos ser “intelectuais” e descobrir funções críticas em tudo o que está diante de nós. Desfigurar categoricamente quaisquer limites que existam. Analisar as mais ridículas manifestações convertendo-as no seu oposto. Porque o mais importante não são os fatos e as situações em si, mas os efeitos que se obtêm desses e seus benefícios para determinados pontos de vista.

O simples surgimento de versões críticas e de tamanha polêmica em volta de semelhante feito, que não possui nada que estimule a inteligência ou a criticidade, demonstra o ápice de um processo de degradação de vários conceitos preexistentes na conjunta sociocultural. Observa-se isso no trecho abaixo, que é do escritor Roger Scruton:

“Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930, se se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, da arte e da música, eles teriam respondido: a beleza. E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade.
Então, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, gradativamente, se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era beleza, mas originalidade, atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.
Não somente a arte fez um culto à feiura, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras, estão ficando cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas.
Uma palavra é escrita em letras garrafais em todas estas coisas feias, e a palavra é: EGOÍSMO. “Meus lucros”, “meus desejos”, “meus prazeres”. E a arte não tem o que dizer em resposta, apenas: “sim, faça isso! Penso que estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida. ”

As palavras acima encaixam-se perfeitamente no ocorrido e levam à seguinte reflexão: antes que comecemos a falar de mudanças, é preciso saber o que se deve conservar. Não há lógica alguma em revolucionar por revolucionar. E, sinceramente, já deveríamos estar cansados de tantas revoluções vazias.

 

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