Born To Die

Durante quatro longos anos, Ryan MacKechnie havia se escondido no dúbio conforto das sombras de sua alma, julgando ser o único lugar digno para a imagem monstruosa que criara de si mesmo. Sentado no banco do Dodge Charger 1968, deixou que o cigarro dependurasse no canto de seus lábios e ignorou a brisa gélida e cortante, que entrava pela janela, bater contra seu rosto. A fumaça se desfazia no ar assim como toda e qualquer esperança que um dia havia habitado no pobre rapaz. A cena poderia soar irônica diante os fatos, no entanto a única coisa que ocupava a mente do homem de cabelos negros, jaqueta de couro e um maço de cigarros no bolso era o som de Last Kiss, afinal era a música que ouviam naquela fatídica noite. Haveria em algum momento trilha sonora melhor que aquela para fechar aquele ciclo ?

“Oh where, oh where, can my baby be?”

As mãos firmes no volante faziam com que o nó de seus dedos ficassem brancos. Ele se lembrava de como ela gostava daquela música, ou de como adorava romantizar coisas as quais em momento algum deveriam ser romantizadas, ou da maneira como sorria com os olhos fechados.

“The lord took her away from me”

Ryan sorriu com o trecho da música. Ele jamais culpou Deus por algo que havia sido exclusivamente sua culpa, no entanto o julgava por tê-la levado ao invés dele.
O banco do passageiro vazio fazia com que o homem engolisse em seco, porém o som da risada da mulher ressoava como um eco em sua mente, as lembranças, de como ela se mexia quando dançava e como parecia não se importar com o que quer que acontecesse no mundo ao seu redor, desde que estivessem juntos, fizeram-no chacoalhar a cabeça.
Hope havia sido sempre sua melhor parte. E ele a perdera. Em um piscar de olhos.
Ela costumava dizer que o paraíso era um lugar na terra quando estavam juntos. Ela nunca esteve tão certa, afinal, Ryan havia presenciado o verdadeiro inferno desde que ela partiu.
Um carro passou por ele, uma garota sentada na janela enquanto seus cabelos balançavam contra o vento e alguma música, à qual não fez questão de prestar atenção, tocava alto e por um breve momento, ele se viu ali, com Hope sentada, enquanto cantava algum hit dos anos oitenta e gargalhava ao errar a letra. E então passou, foi embora tão rápido quanto chegou, e fez com que o buraco em seu peito doesse e se revirasse em busca de alguma esperança. Infelizmente, não restara nenhuma.

Quando seu breve devaneio se foi, restou apenas a estrada vazia e mal iluminada pelo farol do carro, enquanto tudo que tinha era um motorista bêbado em pura carcaça. Ryan se culpava; no início, ia sempre visitá-la, mas com o tempo, a dor passou a ser maior e maior, até que ele se tornou melancólico demais e se sentia monstruoso demais para ir vê-la.
Ele se lembrava de como ela implorou para que ele diminuísse a velocidade, a pista estava íngreme, mas ele a ignorou em um momento de êxtase adolescente, bebidas e drogas, o banco de trás cheio de garrafas vazias. Hope se enfiou no banco do passageiro na intenção de impedir que o rapaz se machucasse, mas isso não fez diferença, porque quando os pneus derraparam em uma das curvas, a última coisa que Ryan ouviu foi o grito agonizante da única mulher que ele um dia amou.
Finalmente estacionou o carro, na horizontal,exatamente na curva onde ele havia capotado o carro, onde fizera com que a única alma pura que algum dia conheceu fosse tirada de si. Recordou-se da primeira vez que a viu, o cabelo enfeitado por flores. Sim, havia belas flores em seus cabelos. Hope as adorava. Ela também as usava na noite de quatro anos atrás, quando a tiraram do meio das ferragens, as pétalas manchadas de sangue, assim como tudo na garota.
Ryan aumentou o som quando ouviu o barulho irritante da buzina de um caminhão diversas vezes alertando para que ele saísse do meio da estrada, no entanto o homem apenas recostou no banco e tragou o cigarro. Ele não sentiu nada, não sentiu como ela sentiu, quando o caminhão o atingiu. Afinal ele havia se libertado da dor que o consumiu durante anos. Pela primeira vez em muito tempo, Ryan se sentiu livre, sim, foi o que ele sentiu, antes que um último suspiro escapasse por entre seus lábios e, de vez, tudo o que restasse fosse seu corpo vazio e sem vida alguma.

“I lost my love, my life that night”

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