Assim como o Outono

Assim como no outono, caem as folhas de meu intelecto e assisto brandamente ao seu quebrar.

Caem ao longe e vagueiam pelas brisas, vão embora e são arrancadas tão facilmente quanto um dia chegaram.

Assim como no outono, sinto a brisa bater forte, gélida, fazendo meus fracos ossos estremecerem, racharem tão fácil quanto um mísero graveto.

Assim como um dia fui jovem, agora assisto às estações passarem e levarem consigo o resto que sobra desta pobre e velha alma abandonada no mundo.

Fui verão e primavera, fui inverno e agora nada além do triste outono. Aguardo o falecer de minhas fracas raízes que ainda se prendem a uma falsa esperança de sobreviver, estão mortas e ainda se negam a partir.

Aguardo o dia em que nada mais irá doer, e que minha pele não irá rasgar-se em pedaços ao mais fraco chacoalhar do vento, o dia em que estar vivo não seja mais um pecado.

Um dia fui como o início do outono, juvenil e inesperado. Levei comigo o que pude, carreguei cada grão de areia por onde passei. Fui forte. Mas, agora, sou apenas outono. Outono triste e mórbido, cansado, esperando chegar o fim, exausto de carregar o peso da morte em meus ombros.

Sou nada além da própria morte.

Clamo por dias quentes, sinto falta dos dias em que fui verão, quando era uma pequena parte do sol, quando ainda não era nada além da pureza da juventude.

Clamo por dias férteis, quando assistia ao florescer de minha adolescência e tudo era novo, quando cada pétala de uma nova flor era o novo despertar de uma sensação desconhecida.

Clamo por dias frios, quando fui capaz de sentir a frieza humana e conhecer seus mais duros pecados, quando o amor era uma pedra de gelo no meio de uma nevasca inteira.

Quando ainda era capaz de sentir.

Clamo por deixar de ser outono em seu fim, quando tudo que tinha para ser levado já se foi, quando um novo florescer está por vir e não serei capaz de tornar a ser verão, primavera ou inverno.

Sequer serei outono novamente.

Clamo por minha vida ceifada pela lâmina afiada da morte, já vivi todas as minhas estações, e elas jamais voltarão, pois já não são mais minhas, já não mais me pertencem.

Agora já não sou mais outono, deixei que partisse e levasse consigo o que restava de mim.

Agora sou vida, sou natureza e sou ar.

Agora assisto ao nascer de novas vidas.

Assisto ao início de novas estações, que já não são mais minhas.

Agora, sou uma pequena parte, também, do que um dia, chamei de morte.

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