Almas do Intelecto – Cap. 1

Lá estavam, as pequenas almas pensantes, ao redor de um paredão complexo e enigmático. O ar era gélido e havia poucos feixes de luz. A única luz que entrava no ambiente era a da vidraça, no teto, em um formato circular. Essa luz revelava o semblante do local: prateleiras e mais prateleiras, carregadas de livros, escadas que pareciam se aprofundar em um abismo. Um ambiente calmo, no entanto, desolador.

 Estavam encarando as estantes, procurando por algo. Seus corações palpitavam, seus rostos revelavam uma ígnea tristeza, e por fim, estavam sozinhos. A única proteção que possuíam eram seus mantos longos de cor gélida. O garoto segurava um lampião que conseguia iluminar um pouco os arredores. A garota era quem procurava, determinada, encontrar algum livro. Ambos já se escondiam em seus mantos, trêmulos. Estavam em absoluto silêncio, procurando. A garota estava demasiada concentrada, e o garoto em silêncio, esperando pacientemente. O ar começava a esfriar, e a luz do teto começava a transparecer. O garoto ouve um som, um ruído. Com o lampião em mãos, vagarosamente se aproxima em direção ao ruído. Um puxão em seus mantos o interrompe:

-Ei, Reisel! Pare! Pode ser um daqueles… – avisou a garota, trêmula.

-E pode não ser nada! Espere aí… – e avançou.

 Seus passos se tornavam um badalar, ao toque do piso de madeira. Ouve-se mais um ruído, desta vez, mais forte. Era um som questionável, parecia de pesadas botas de ferro golpeando o chão com seu peso, mas ainda era indiscernível apenas aos ouvidos.

 Em seguida, ouviu um grito lento e escarnecido, tal qual uma besta preparando sua garganta. O garoto Reisel decide parar. Era discernível. Sua expressão indicava que não era algo bom. Engoliu em seco e, lentamente, dava passos para trás. Sentiu um calafrio; a besta aproximava seus pesados pés em direção a ele. Sentiu que iria morrer ali.

-Fuja! Lilith! -rugiu o garoto, enquanto arqueava seus passos para trás. A fraca iluminação do lampião exibiu: Pernas humanoides em uma grossa calça de couro, semi-coberto por uma longa capa azul desgastada. A besta estava em sua frente. Procurou olhando pelos lados alguma coisa, alguma arma, enquanto a criatura esticava seus braços ao encontro da criança. Sem pensar direito, arremessou o lampião no rosto da criatura, e fugiu, deixando livros caírem pelo caminho.

Era uma carta, uma fina carta. Um pequeno envelope de cor branca, selado por um botão de cera avermelhado, com a elegância própria da nobreza. Uma carta como aquela, com os nomes em uma fonte espaçosa e clássica, havia sido entregue em uma pútrida vila; como uma mensagem dos deuses.  

Lilith & Reisel, estes indivíduos estão classificados e aptos a se matricularem, de acordo com o Conselho, como integrantes do Colégio de Exploração e Ensino da Grande Biblioteca.”

 Isso seria uma honra e um desastre. Os dois garotos, da frágil vila, iriam partir. Umas das poucas crianças que ali moravam, eram um despertar de alegria para todos. Dias e dias nos quais sorrisos foram originados, e agora iriam partir.

 Por outro lado, ninguém duvidava de como uma vaga dentro da Grande Biblioteca era rara, complexa. Quem saísse formado de lá, era nítido que uma boa vida os esperava. Ninguém os impediu de ir, todos esperavam pelo melhor dos jovens, e eles queriam retribuir o carinho da vila. Desta forma, quiseram aceitar este pequeno arranjo da vida.

 Reisel era um garoto forte, destemido, leal e sempre animado. Nunca descartou que os estudos poderiam ajudá-lo. Um garoto inocente e saudável. Cresceu animado, sempre esbanjava felicidade. Era, no entanto, um pouco individualista e egocêntrico. Algo que ligeiramente o manchava.

 Lilith, pelo contrário, era uma garota calma, gentil e ajudava quem podia. Sua paciência e simpatia conquistavam qualquer um que ousasse ter raiva dela, sua voz era quase angelical. Parecia uma garota pura, tal qual um anjo. Seus cabelos, ao contrário dos castanhos de Reisel, eram loiros esbranquiçados, como um fino conjunto de penas límpidas. Ambos, sem dúvidas, fariam falta à vila.

-Então vai mesmo… à Biblioteca? Quanto orgulho! – a pequena senhora esguia esboçava um sorriso.

-Sim, mãe. Vou à Grande Biblioteca… Orgulhar a senhora. – quase lacrimejava a garota.

-Entendo, minha filha. Que você volte sendo uma expedicionária, vamos nos orgulhar muito de você.

-Sim, mãe, farei isso. – fazia um gesto com a cabeça de agradecimento, ao mesmo tempo que ficava cabisbaixa, e terminou  – Sentirei falta.

A pequena senhora percebeu a melancolia:

-Sim, filha, sei que  vai sentir… Mas continue pensando no seu futuro. – e a garota abraçava a mãe, chorando. Já imaginava, uma vida sem seus pais. Imaginava a dureza da vida sem eles, assim como os amigos com quem não teria mais contato. Uma verdadeira tristeza. Estava prestes a abdicar de sua vida.

-Que Deus abençoe sua jornada. – suplicou as preces no ouvido da filha.

 A relação entre Reisel e seus pais, era, no entanto, diferente:

-Está brincando, certo, garoto? – murmurou o pai do menino.

-Claro que não! Eu tenho um convite pra ir à Biblioteca. -respondeu a seu pai, de forma genuinamente feliz.

O pai coloca as mãos na face, como que escondendo o rosto. Depois, olhou seriamente para o garoto e começou:

-Olhe, filho. Você deve imaginar, mas nossa vila é extremamente pobre. – firmou-se nos ombros do rapaz, olhando-o diretamente. -Todos que estão aqui… certamente morrerão. Trabalhando, trabalhando sem parar, essa é nossa vida como fazendeiros, filho. Mas agora, você tem a oportunidade de mudar isso… Um futuro melhor que viver nessa sujeira. – abaixou-se para ficar à altura do filho. – Promete que vai estudar, certo? – Olhando-o seriamente.

-Claro, pai… Prometo. – e pediu a Deus um pouco de piedade.

 

Os garotos engoliam em seco. A jornada até lá era longínqua, e eram apenas crianças, ainda não conseguiam se sustentar. As mães dos dois organizaram um evento, praticamente toda a vila estava presente na partida dos jovens. Despediram-se de cada um com um caloroso abraço e se preparavam para a caminhada. Cada um carregava um fardo de panos e alimentos, xícaras, ferramentas. Embora fosse uma vila pobre, seus pais queriam mais que tudo que seus filhos ficassem bem.

 E então, chega o dia. Os jovens, mais nervosos do que nunca, lacrimejavam, choravam vigorosamente, já de saudades de casa. Sabiam o que viria a seguir. Despediram-se de todos seus ótimos amigos, parentes, pais e mães. Apesar de toda essa dor sentimental, ainda tentavam o otimismo proposto: Pensem no futuro, e assim prosseguiram, as almas pensantes iam se encontrar com a Grande Biblioteca.

1 comentário em “Almas do Intelecto – Cap. 1”

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