15 Cartas Sobre Você: Carta Dois

A cidade já começava a acordar e, sentada na sacada, Grace deixou que o calor do café na xícara aquecesse suas mãos gélidas e o roupão felpudo a envolvesse como um casulo. Os cabelos castanhos claros e encaracolados presos em um coque frouxo, alguns fios rebeldes se desprendendo e caindo em seu rosto. Grace jamais estaria nos padrões de beleza impostos pela sociedade, mas era dona de uma beleza exuberante e tão natural. Tinha o rosto em formato de coração, maçãs do rosto bem desenhadas, um belo par de olhos violeta, e uma boca consideravelmente grande, afinal, como 15 gostava de ressaltar, não como uma ofensa, sua boca “cobria metade de seu rosto” quando ela sorria.

Desta vez, o único som presente no local era o das buzinas do carro de pessoas apressadas e irritadas com o engarrafamento logo de manhã.

15 nunca se estressava com essas coisas, na verdade, gostava de como ela se jogava no banco enquanto pestanejava, com o braço apoiado na janela e o rosto encostado no dorso de sua mão, ele amava ter mais tempo para observá-la, os engarrafamentos de manhã lhe permitiam ter mais tempo para isso, mesmo que fizesse com que eles se atrasassem para o trabalho.

Seus pulmões se encheram de ar, que mais pareciam um fósforo aceso jogado em um galão de gasolina. Os olhos pesaram pela noite mal dormida, e os dedos deslizaram pela gola macia do roupão. Encarou as diversas folhas espalhadas em cima da mesa do escritório, e tentou ignorar a vontade avassaladora de alguma forma tornar a conversar com ele.

Havia prometido a si mesma que aquelas cartas jamais seriam entregues, que era tolice escrever para alguém que nunca as leria, no entanto, toda aquela breve história de amor, que não obteve o final feliz que merecia, deveria, de alguma forma, ser relatada.

As nuvens cinzas que tomavam o céu anunciavam que não demoraria muito para que uma tempestade atingisse a cidade.

Grace relembrou a sensação dos grossos pingos de chuva tocarem sua pele, relembrou a forma como os fios dourados do cabelo de 15 colavam em seu rosto, como ele gargalhava enquanto se moviam lentamente ao som de Come back – Pearl Jam, que vinha do carro, que por sua vez havia quebrado na estrada, enquanto ignoravam a poça de lama abaixo de seus pés.

Sentia falta de como ele tornava tudo em diversão ou que, por maior que fosse o problema, ele conseguiria resolver sem tentar explodir o mundo, ou se auto explodir, como ela faria.

O som estridente da voz das crianças que caminhavam pelas calçadas com seus belos uniformes amarelos de escoteiros, medalhas penduradas em suas faixas, caixas de biscoitos crocantes em mãos, fizeram a mulher despertar de seu breve devaneio.

Engoliu o orgulho que gritava dentro de si que aquilo já havia acabado, e que já se passava da hora de superar o término de algo que nunca deveria ter começado, e caminhou em direção ao escritório com uma voz gritante do seu eu interior, pedindo por ajuda, pedindo para ser libertada. E novamente permitiu que a ponta da caneta tocasse a folha amarelada.

Vancouver, 26 de março de 2018

Querido 15,

Gosto de acreditar que todas as pessoas que passam por nossas vidas não vieram em vão. Afinal, você se foi e, mesmo assim, não deixou de ser uma parte importante em mim. Deixou marcas profundas, as quais tenho medo de remexer, ainda são feridas que não se cicatrizaram, mas gosto delas, me lembram você, lembram que em algum dia eu te tive, e que tudo foi real.

Lembram também a forma como passei o dia seguinte, após te conhecer, à espera de que a qualquer momento a porta da frente, daquele péssimo bar, fosse aberta, e você adentrasse, com seu típico sorriso de canto, covinhas profundas, e olhos vibrantes. Mas esperei em vão, você não apareceu. Não naquele dia, nem no resto da semana, e sequer na semana seguinte, e tudo que eu tinha era um nome, e uma, agora turva e avassaladora, imagem sua.

Três longas semanas se seguiram e como dizem, o tempo é um assassino meticuloso das lembranças, afinal, eu mal me lembrava do som de sua voz. Entretanto, mesmo agora, com tantos meses tendo se seguido depois que você se foi, ainda está presente aqui 15, seu cheiro, o espaço vazio na cama parece guardar até mesmo o calor de seu corpo, e às vezes posso ouvir o rouco som de sua voz. Isso soa tão perturbador, e é.

A verdade, 15, é que se agora estou sentada perante essa folha de tom já amarelado, escrevendo para você algo que jamais irá ler, é porque estou tentando descobrir, recordar-me de alguma parte de nossa história que faça com que eu encontre o lugar em que nós nos perdemos, não apenas um do outro, mas principalmente de nós mesmos. Talvez, tenhamos cobrado um tipo de perfeição que jamais seriamos capazes de alcançar, e isso nos destruiu sem que sequer percebêssemos.

Você tornou a aparecer no bar, após dois longos meses, não entrou, apenas aguardou do lado de fora até o fim do meu expediente. Então, quando coloquei meus olhos em você pela segunda vez, poderia jurar que em algum momento, mesmo que breve, meu coração parou de bater.

Você sempre foi tão doce e gentil, 15, fazia com que eu me sentisse especial, única, principalmente quando eu te encontrava me olhando de soslaio enquanto eu tagarelava algo aleatório quando caminhávamos pelo parque em um fim de tarde, ou quando após um jantar me acompanhava até a porta de casa e depois ia embora.

Sinto falta dos dias ensolarados ao seu lado, quando tudo que fazíamos era deitarmos em uma toalha macia sobre a grama enquanto conversávamos sobre nossos sonhos, sequer percebemos o momento em que passamos a estar inclusos nos planos um do outro.

Você esteve fora do país, por isso demorou tanto para que eu retornasse a te encontrar, viajou a “negócios”.

Fomos até um restaurante, ao leste de Vancouver naquela noite, recordo-me do sabor do vinho, de como explodiu em meu paladar, recordo-me de como suas mãos se esfregavam uma na outra enquanto falava e sorria de alguma piada ou comentário besta feito por mim.

Sei que não tem necessidade alguma para que eu relate algo que ambos vivemos, mas sinto que devo compartilhar cada mínimo detalhe do qual me recordo.

Temo estar encerrando a carta por aqui, as coisas estão começando a ficar confusas em minha mente, mas no final, você sabe exatamente o que aconteceu naquela noite.

Com todo meu amor, Grace.

Grace permitiu que se corpo se esparramasse na cadeira e fechou os olhos com força como se aquilo fosse afastar as lembranças, mas antes que se desse conta, havia sido pega pelas próprias armadilhas de sua mente, assim sendo levada de volta ao passado.

Vancouver Maio de 2016:

A mulher apoiou as mãos sobre o balcão e negou com a cabeça tentando manter a calma, quando um homem embriagado tornou a bater com o taco de sinuca no balcão alegando não ter sido ele a ter gastado toda aquela quantia em dinheiro no bar aquela noite.

Sua cabeça parecia prestes a explodir caso o homem gritasse novamente. Antes que o bêbado pudesse abrir a boca para dizer algo novamente, Grace caminhou em sua direção e parou a sua frente.

-Estou me questionando se tudo isso – Fez um gesto com as mãos indicando a cena que o homem fazia – é por que está bêbado, ou se é por que não passa de um sem noção…

Grunhiu. Passou as mãos pelo vestido e ajeitou a postura.

-Agora peço para que o senhor se retire…

Apontou em direção a porta e então observou o homem sair pisando forte com os olhos vermelhos de raiva, ou talvez só estivessem vermelhos pela quantidade de álcool em excesso no corpo do homem de meia idade.

O pobre Sr. Hank Robertt tremia atrás do balcão, tão pálido quanto uma folha de papel, suspirou aliviado quando o baderneiro da noite se foi.

Hank tinha pouco mais de setenta anos. Cabelos grisalhos, olhos tão azuis que muitas vezes pareciam ser transparentes, sorriso gentil e dono de uma bondade infinita.

-Ah minha doce Grace, o que eu seria sem você?

Falou em meio a uma risada tão nervosa quanto aliviada.

-Tenho certeza que encontraria um outro alguém, tão bom quanto eu, para te ajudar em seus dias de luta Sr. Robertt.

Grace encarou o relógio na parede, seu expediente já havia chegado ao fim, pouco mais de duas horas. Havia permanecido no estabelecimento para ajudar Hank com alguns homens que não entendiam que já se passava da hora de fechar o bar.

Negou com a cabeça, pegou a bolsa que estava guardada nos quartos do fundo, trocou de roupa e deu graças aos céus por estar vestindo algo confortável, a mulher mal podia esperar para estar em casa, tomar um longo e relaxante banho, se enfiar de baixo das cobertas e permitir que o sono e o cansaço a vencessem. Havia, de fato, sido um longo e exaustivo dia.

Fechou o caixa e logo viu Hank, após se despedir, sair pela porta dos fundos e entregar a chave da porta da frente para ela, sabendo que na manhã seguinte Grace Prescott estaria ali antes que ele próprio chegasse ao estabelecimento.

A mulher jogou o pequeno molho de chaves dentro da bolsa e remexeu os pés de forma inquieta, apagou as luzes e guardou o celular no bolso da calça antes de se dirigir até a saída. Um sentimento de inquietude a tomava, como um presságio, a tensão a tomou fazendo seus nervos ficarem tensos, remexeu-se na intenção falha de relaxar.

Cantarolava baixinho uma música qualquer que deveria estar ecoando em sua mente, como acontecia com frequência, quando se virou, após fechar a porta, e o viu ali, com as mão enfiadas no bolso da calça, encostado no capô do carro, iluminado apenas pela fraca e pálida luz amarelada dos postes da rua. Sentiu seu coração parar dentro do peito, e precisou juntar todas as forças que lhe restavam para conseguir caminhar em direção ao homem. As pernas tremiam, e ela se questionava sobre como ainda se encontrava de pé. Pestanejou mentalmente quando se deu conta da aparência deprimente que a tomava naquele dia, pequenas olheiras se formavam abaixo dos olhos, e mesmo tendo grossos e longos cílios, enormes olhos violetas, ela sabia que aquilo não seria o suficiente para fazê-la parecer menos exausta. Sem que percebesse, como se fosse um instinto natural, deslizou os dedos por algumas mechas de seu cabelo levemente encaracolado e finalmente parou à frente do rapaz tentando não parecer tão nervosa quanto realmente estava.

-Olá…

Foi tudo que foi capaz de formular quando seus olhos encontraram aqueles glóbulos castanhos vibrantes.

Um doce sorriso ingênuo tomou os lábios do rapaz e ele finalmente se afastou do capô para encará-la. Foi necessário abaixar o rosto para vê-la com maior clareza.

-Estive pensando Srta. Grace, se talvez, caso não tenha nada planejado para essa doce noite, se gostaria de me acompanhar em um jantar…

De repente tudo pareceu estar em câmera lenta para ela, os lábios dele se moveram lentamente, e cada piscar de seus olhos pareceram uma eternidade, a forma com que seus lábios se curvaram em um afetado sorriso de canto, que mostraram suas longas e afiadas presas e uma fileira de dentes perfeitamente alinhados.

Grace piscou algumas repetidas vezes e engoliu em seco ao sentir a garganta se fechar. Ela não entendia o porquê de estar tão nervosa naquele momento.

-Seria ótimo.

Finalmente conseguiu dizer. No entanto, nunca, em todo o decorrer de sua vida havia se xingado tanto como naquele momento, por sua voz ter saído tão trêmula, por suas mãos estarem suando, por seu coração estar prestes a quebrar todos os seus ossos e finalmente rasgar sua pele, por ter dado uma resposta tão curta como aquela, mas, respirou fundo na intenção de retomar a postura.

Como de costume, ele sorriu, fazendo com que novamente ela sentisse as pernas trêmulas. Eles ficaram ali, parados, apenas se encarando, as batidas dos corações tão fortes que ambos poderiam jurar que o outro as estariam ouvindo.

As mãos dela se juntaram em frente ao corpo enquanto seu pé batia freneticamente no chão podendo ser o único som a ser ouvido entre eles além do de suas respirações pesadas.

A luz refletia nos olhos da mulher e davam um tom mais amarelado às mechas de seus cabelos, o raso furo no queixo agora podia ser visto com clareza sobre a luz amarelada dos postes.

Era possível ouvir o som dos diversos carros que passavam não muito longe dali, e o som da voz das pessoas que conversavam entre si enquanto caminhavam de volta para casa ou estavam rumo a uma boate para aproveitar o restante da noite, ou em algum bar, ou em encontro romântico, e claro, o daquelas que mesmo já sendo tão tarde, gritavam ao telefone sobre negócios.

O homem suspirou e ergueu o olhar em direção a um enorme prédio, onde apenas uma única sala ainda se encontrava com a luz acesa. Alguém havia decidido trabalhar até mais tarde. Isso fez com que ele se lembrasse do pai, e de como a mãe havia passado longas noites sentada na sala a espera de que o marido chegasse para que ela pudesse se deitar e dormir em paz, até que isso a desgastou, e desgastou também seu casamento, que resultará em um doloroso divorcio para o filho.

Balançou a cabeça afastando as lembranças e encarou Grace por mais longos minutos, ele gostava de como o silêncio entre eles não era constrangedor e de como ela não parecia se abalar quando ele a encarava fixamente.

Sem que percebesse, seu corpo se curvou na direção da mulher até que suas respirações começassem a se misturar e então 15, naquele momento, concluiu de forma definitiva o que já sabia desde que a viu pela primeira vez naquele bar. Grace Prescott era sem dúvidas a mulher mais bonita que ele já havia visto em toda a sua vida.

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